
Não comecei a ler o livro.
Deliberadamente, decidi varar a madrugada fazendo outras coisas - criando fantasias para preencher meu coração. Eu não preciso - nenhum ser humano precisa - de fantasias para preencher vazios... não sei que palavra se usa para isso, mas tomei decisões e agora tenho medo de seguir adiante. Estou com medo de perder algo que não tenho. Nem sempre se está tão disposto assim, não é mesmo.
Muitas vezes, tenho vergonha de mim mesma. Não exatamente do que eu fiz... mas do resultado das coisas que eu fiz, no que essas ações me transformaram. Conscientemente, sei que é mais do urgente parar. Conscientemente, é preciso admitir que não quero parar. Que quero continuar a me esconder, a me enganar, etc, etc, etc. Toda a ladainha.
Para minha total sorte, no entanto, essa vontade de verdade não vai parar. Eu preciso da verdade como um sangue. Eu preciso dela nas minhas veias, para que minhas veias sejam veias, minha pele seja pele, para que tudo me pertença, tudo seja meu. Não há, nem nunca houve necessidade de se esconder por trás de nada, nem de ninguém. Havia, talvez, uma arrogância... a arrogância de não precisar sofrer.
Esclareço logo: é ridículo determinar sofrimento como rotina de vida. Mas do que falo é da coisa natural, da dor natural da vida. A dor de um parto; de uma febre; a dor causada por algo que realmente nos causa dor. A dor das tristezas necessárias da vida, das frustrações, dos desavanços; das feiuras. A dor que lembra quem somos.
Para minha total sorte, a vontade pela verdade não vai parar. Ela sempre se manteve no meio da noite, como hoje, quando não quero dormir. Para não ter que sonhar, não precisar acordar. Para, também, causar sono, falta de vontade, preguiça. Coisas que justificaram minha baixa valia, causaram a ausência do Amor.
Entupi minha noite de filmes românticos, querendo fantasiar com algo que.... algo que.... ainda não sei explicar. E me peguei reinventando uma vida para mim mesma, mas numa em que as decisões da minha felicidade partiam de outros. Ouvindo músicas para se lembrar de alguém que não há. Morrendo de saudades de algo que só eu inventei. Quando me dou conta, percebo que, na verdade, eu precisa descansar para encarar meu dia seguinte, um dia que eu poderia construir tudo que eu quisesse; mas já tinha gastado meu tempo desejando, mais uma vez, algo que eu nem queria.
Ah, que cansaço.
Eu não preciso mesmo de ninguém no meu coração. Ninguém além de mim. Pois o coração é habitação e quem possui a chave da casa é o seu dono. No meu sonho, eu estava na cama, sonhado, quando chega o desconhecido... que tem a chave.
A liberdade para mim não é uma opção. Felizmente. Sou obrigada a ser livre.
Até meu inconsciente grita.
Me envenenei com doces. Veja bem, não há nada de errado com os doces, quando eles realmente podem te saciar. Viver só de doces não alimenta a alma, eles só fazem sentido depois do arroz e feijão.
(por que procurei alguém para ocupar minha mente, quando eu já moro lá?)
Eu fugi do livro . Mas devia ter me livrado de outras coisas.
Eu optei por velhas histórias que nem cabiam mais pelos meus pés, não me passavam mais pela cabeça. Fui convencida de que era o que havia no momento - não seria merecedora de algo melhor. Eu optei por velhas histórias, que eu mesma sabia que não correspondiam a minha vontade. Por que fugi de abrir um livro novo, de ter novas histórias?
Provavelmente, há resposta para toda pergunta feita - algumas perguntas podem ter mesmo duas ou três ou zilhões de respostas.
Mas logo que me dou conta do meu equívoco, a graça em ver aquele episódio repetido, de uma coisa que fazia tanto sentino no nosso passado - mas que hoje não há valor algum para ela - é inexistente. Existe um livro novo, um presente, uma coisa que minha alma grita há anos. Do que me serve ignorá-lo? Todas as drogas que utilizei não me deram paz; e as desculpas em farrapos que decorei não me enganam mais.
Pois agora, fica marcado o início do fim do passado.
O livro é aberto. Adeus, minhas ficções. É por esse livro que terei acesso ao real.
Abro. Tudo tem volta, mas não desejo o retorno. Não é necessário desejar mais nada. Só quero ver, só quero ser.
Lendo as orelhas do livro, encontro uma ironia, uma sintonia: o livro trata do arquétipo da mulher selvagem atrás da análise de histórias - mitos, contos de fadas, etc. Usa a ficção para lidar com o real - uma vez que utilizei o meu real para habitar numa ficção.
Não é necessário desejar nada. Viver, isso sim, é necessário.
Habitar, conquistar meu coração. Isso é necessário.
Até porque, não há como entrar numa casa fechada, não honestamente, se não houver ninguém para atender a porta.
De longe, vejo a alcateia.