quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Rainha

Quando se considera tão pouco a si mesmo, a imagem do reflexo costuma vir falha e há um desajuste no valor de quanto nos vendemos e por quanto gostaríamos que nos comprassem.

Primeiro, eu me achei sem valor.

Na segunda fase, eu me apresentava sem valor ou com um valor muito abaixo do mercado.

Que lucro há nisso, a não ser o fato de que, quando somos poucos, não é necessário fazer esforço para nada.

Dessa vez, minha arrogância me salvou da escravidão: eu não estava satisfeita em ser tão pouco, pois me considerava acima de todos.

Ah, sim, eu fui uma rainha. Na terra da Vitimolandia.

Trinta e um anos até a coroa, que me incomodava há tempos, fosse retirada.

Alma Barata

1- O medo é ilógico.

2- Elas não gostam de se esconder... elas só CONSEGUEM se esconder.

3- A maioria das pessoas não sabe nada sobre elas.

4- São feias pra caralho. E nojentas.

5 - A barata não vai embora. Ela foge. E só quando for descoberta.

6 - As baratas são solitárias.

7- As baratas te vencem pelo medo.

8- Elas fazem "caquinha".

9- Elas fazem casulos.

10- Ignorar UMA barata pode gerar uma proliferação silenciosa delas na casa.

11- Não tem jeito - por mais que se tenha coragem, sempre se fica com medo de baratas.

12- Ninguém gosta de admitir que tem baratas na casa. É como se fosse uma culpa, um fracasso.

13- Você pode ser maior. Elas são mais rápidas.

14- Pode chegar o momento em que chinelos não será mais o suficiente.

15- Apesar de assustadoras, elas não são capazes de te enfrentar.

16- À noite, elas aproveitam para sair do seu esconderijo ... para ir para outro.

17 - As baratas não possuem um grande objetivo na vida. Nem um pequeno. Esse é o nosso trunfo sobre elas.


A dança


"A dança mal conseguia ser tolerada, se é que o era, e por isso elas dançavam na floresta, onde ninguém podia vê-las, no porão ou no caminho para esvaziar a lata do lixo."

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Vôo Solo


antes o céu do que mal acompanhado.


Precisava passar aqui antes de dormir, falar dessas coisas de hoje. De como hoje arrumei minha casa - que já estava arrumada - apenas bagunça-la mais, perder definitivamente o medo de baratas e deixar minha casa e meu passado mais leve. De como isso teve sua beleza e como foi divertido ter minha filha ao meu lado nesse momento. Mas como esse momento não teve nada de ideal. Ele precisou ser feito e foi.

Falar da solidão de hoje, como os amigos fugiram das minhas mãos... uns se esconderam na ilusão, outros na mentira e alguns nos shoppings mesmo... mas de como isso foi bom, porque lembrei de como era a solidão, de como doía e de como não doía coisa nenhuma - pois eu não estava só. Eu só me achava só.

Eu li em algum lugar que a solidão é incapacidade de fazer companhia a si mesmo. E é verdade.

O Amor Próprio não me parece um destino, me parece uma estrada, bem, bem, bem, bem longa e que precisa estar marcada pelos seus pavimentos, para facilitar o trânsito. Não basta se amar, tem que se esforçar todo santo dia.

Hoje, não houve o que me distraísse. Matei todas as baratas que consegui - só me escapou uma, não imprevista. O gozado é que eu sabia das outras. Eu sabia que estavam lá, se alimentando dos meus segredos. Aniquiladas, como Ryan Gosling matando seu inimigo no elevador.

Não é por acaso que eu assusto. Nunca consegui esconder muito bem que sou uma selvagem.

O resultado da minha nova faxina foram espaços novos... e o engraçado é que eu não sabia o que colocar neles.

Mas é preciso preencher algo só por que se está vazio?

A última lição do dia foi ter dormido para assistir à cerimônia de entrega do Oscar e ter acordado só depois que ela estava encerrada. O que há de libertador nisso? Simplesmente tudo: filmes que não vi, vida que não acompanho, coisa repetida que fiz durante zilhões de anos e sequer tava com vontade - sincero. Quando acordei, no entando, me senti mal por ter perdido... o que foi mais maravilhoso ainda.

Eu preciso desse medo, provoca-lo, convoca-lo. E depois transformá-lo em coragem, em coração. Pois eu não temi mais as baratas porque já estava acostumada com elas... na verdade, o fato de saber que elas estavam escondidas em algum lugar passou de confortável para desconfortável e hoje CONFRONTÁVEL.

Os objetos de apego, tão nocivos e feios como as baratas, talvez precisem passar por esse processo. São várias baratas, infelizmente, em vários esconderijos, tantos que há sempre uma novidade. Um a um, eles vão me ficando desconfortáveis. Aguardo o confronto.

Precisava escrever isso.
De como minha Redenção foi a ficar sozinha, mas sem estar.
Só para descobrir que esse território é meu.

Sonhem, almas corajosas. E confrontem. O caminho do coração é esse.


sábado, 25 de fevereiro de 2012

Re-conhecimento




Eles têm estado lá há algum tempo. É difícil perceber o quanto - até mesmo, se eu eu os havia notado. Ou em quanto são. Não consigo prever seus sentimentos - raiva, alegria, aflição. Apesar desse contato visual, da respiração a flor da pele, eu não sei nada, a não ser que fica cada vez mais óbvio que não há, nem nunca houve a intenção de ficarem escondidos, a espreita.

Resta, então, que quem me cobria era eu.

Com a frágil e rala consciência de mim, eu tento me olhar, mas sem um espelho, isso se torna uma tarefa infeliz. Eu ergo o meu olhar e novamente os percebo, nessa nova forma: eu me verei em seus olhos. Olhar para si também é olhar para o outro - e talvez, olhar para si seja apenas olhar para o outro. E se reconhecer.

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Já disseram que o que odiamos nos outros é o que odiamos na gente mesmo, não foi? Tento sempre ter isso em mente. Que as minhas acusações sejam de crimes que EU cometi. Que o que não posso perdoar seja, em verdade, meus pecados. E tenho fugido tanto que só corrobora essa versão das coisas.

Os sonhos, então, são algo. Acordo sempre com medo. Um ou outro sentimento pode variar - nesse que me trouxe até o CaraAlma há resquícios de raiva - mas medo está muito marcado no meu corpo. Há sempre pavor, acordo agitada - geralmente, eu anseio pelo fim do sono e então desperto. A sensação é desagradável, a realidade dá um pouco de acolhimento, até eu me lembrar de tudo o que me cerca. E fugir é desnecessário - eu ainda estou dentro de mim.

Talvez essa coisa de autojornada seja uma grande guerra com o seu ego. O meu ego é o meu maior inimigo - é como vejo as coisas no momento. Gostaria de destruí-lo, quebrá-lo - ele me é como um espelho que só me mantém presa em mim mesmo. E eu quero ser livre em mim mesma. Quero ser livre em minhas roupas, nos meus risos, na minha raiva e na minha idiotice.

(Para quem se preocupar se isso dará certo, eu reafirmo que liberdade é um caminho sem volta. Estou sem escolha e estou feliz. Isso irá para onde irá, longo ou curto seja o caminha que se trilhe.)

Talvez essa coisa de autoconhecimento, na idade em que me encontro, seja como um exercício, como uma prática. O meu corpo também precisa de treinamento - o que nenhum livro ou insight pode dar. Ele precisa da experiência física para criar o seu instinto. Nesse caminho, apesar de manter mais fechado do que aberto, o meu corpo segue praticando sua liberdade.

Ele fica triste - não muito, é verdade, mas já consegue pronunciar as palavras "estou triste agora".

Ele se defende das risadas debochadas - coisa bem difícil, porque o movimento antigo era de rir também, depreciar-se também.

Ele diz não para uma situação repetitiva - é verdade que não usamos a verdade nesse caso. Mas a verdade envolvia todo um passado de mentiras... o corpo, que não tem tempo, apenas infância e velhice, achou por bem começar pelo presente, até para que todos os envolvidos, mesmo não compreendendo o passado, sintam que agora é o que interessa - e agora já mudou.

Ele exigiu respeito.

Ele liga para quem não perdoou - não tendo perdoado.



Veja bem, a jornada do corpo não é necessariamente a jornada da alma. As necessidades são diferentes, os compostos são diferentes. E é necessário contar-se com os dois.

Antigamente, eu confundia muito - o corpo e a alma. Errava nas minhas leituras - e errava nas leituras alheias. Porque, por muito tempo, eu não tinha poder sobre nenhum deles.... quando passei a ter decisões sobre eles, cometi muitos equívocos.

Eu alimentava o meu corpo em seus anseios - quando os anseios eram da alma. Por isso, passar dois anos sem escutar meu corpo fez que eu entendesse minha alma. Naturalmente, a alma e o corpo não são inimigos: conforme escutava a primeira, o segundo seguia na mesma melodia, harmoniosamente. Passar tanto tempo hibernando realmente ajudou a compreender e valorizar o acordar.

Resistir foi importante - as pessoas não entendiam por que eu não "aproveitava a vida" fazendo sexo com qualquer um que me aparecesse - ou qualquer um que me desejasse ou que eu desejasse. Poucos compreenderam que eu deveria ser mãe naquele momento - e ser mãe também era ser eu. Lidar com isso é importante - as pessoas não gostam de ser lembradas das mentiras que inventaram para si, elas se sente traídas, roubadas. Como eu mesmo tentei fazer no meu próprio sonho, nós, com medo, atacamos qualquer coisa que anuncie nossa libertação. É daí que vem aquela coisa que somos nosso maior inimigo.

Outra coisa que devo dizer: sobre a mensagem da minha prima. Veja bem, minha prima - minha família - é aquela outra opção que sempre ignorei. Eles sempre estiveram ali - mas não me amei suficiente para poder enxergar o poder do amor deles. Mas estamos vivos e ainda há tempo.

Minha prima me mandou uma linda mensagem quando soube que estava de partida nessa minha caminhada. Me dizendo coisas maravilhosas, próprio da natureza dela.

Mas algo me incomodou: algo sobre eu não ser séria, não parecer ser séria... isso é uma lenda, lenda antiga. Não, ela não foi a única. Toda minha vida teria sido assim.

Quando meu primeiro filho nasceu, isso ficou gritante, pois muitos vinham me elogiar minha determinação - surpresos pelo fato de eu ser uma boa mãe. Acho que eles pensavam que ia deixar a criança passando fome ou jogá-la em um latão. Só pode.

Apesar de isso me causar muita raiva - pois detesto ser acusada de algo que não fiz - comecei a considerar por que tantas pessoas acham isso. Sim, eu sempre fui taxada de louca ou maluca. Claro que há situações que fujo do normal, mas não é a maioria delas - pelo contrário. Eu nunca usei drogas - e só passei a beber álcool agora, coisa que quero reverter, pois não sou eu (era eu querendo agradar alguém). Fiz sexo sem amor muito menos do que as pessoas que me acusam. Não acredito em infidelidade. Acredito no que é certo - sim, pois existem coisas que são certas. Acho ser fraco, ou o elogio à fraqueza, um porre. Defendo a verdade e a honestidade - mesmo na época em que não fazia essas coisas muito bem. Eu era irresponsável sim. Mas também era outras coisas...

Como olhar para si também é olhar para os outros, com certa dificuldade, posso começar a perceber que também vestia uma máscara. Uma máscara tão forte e grande que permitiu que nunca me vissem como sou/era. Tão fabulosa que houvesse quem a invejasse. Como o meu corpo anda nú por aí, as pessoas quase nem reconhecem - elas esperam pela máscara. No passado, quando meu primeiro filho nasceu, isso me causou grande aflição. O abandono e o descaso das pessoas me feriu profundamente. Ainda estou aprendendo que quem nos abandona não pode valer grande coisa. E estou deixando ir - que grande atraso o meu, não é?

Ah, é uma grande alegria a tristeza. E se mostrar triste.

Eu tive essa experiência de carregar minha tristeza - sincera - e não ter vontade de fazer nada, nem de conversar com aquele gatinho. Não sei dizer como, mas me senti melhor do que simplesmente estivesse alegre.

Há sim um pacto que mantivemos todos esses momentos com essas pessoas... quebrou-se. Nesse momente, eu devo parecer uma estranha para elas. E a elas, eu pouco reconheço. Naturalmente, aquele desconhecido que em meu sonho entrou em minha casa passo a passinho - bem pequeno, vero - cada vez mais me é familiar.

Mais uma vez, se nota que na palavra re-conhecer, o prefixo traz a ideia de repetição... conhecer de novo. O que foi esquecido.

Chega de deixar qualquer um entrar na minha casa.

Intro

"Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decidamente quatro patas."

(ESTÉS, 1994)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Livro


Não comecei a ler o livro.

Deliberadamente, decidi varar a madrugada fazendo outras coisas - criando fantasias para preencher meu coração. Eu não preciso - nenhum ser humano precisa - de fantasias para preencher vazios... não sei que palavra se usa para isso, mas tomei decisões e agora tenho medo de seguir adiante. Estou com medo de perder algo que não tenho. Nem sempre se está tão disposto assim, não é mesmo.

Muitas vezes, tenho vergonha de mim mesma. Não exatamente do que eu fiz... mas do resultado das coisas que eu fiz, no que essas ações me transformaram. Conscientemente, sei que é mais do urgente parar. Conscientemente, é preciso admitir que não quero parar. Que quero continuar a me esconder, a me enganar, etc, etc, etc. Toda a ladainha.

Para minha total sorte, no entanto, essa vontade de verdade não vai parar. Eu preciso da verdade como um sangue. Eu preciso dela nas minhas veias, para que minhas veias sejam veias, minha pele seja pele, para que tudo me pertença, tudo seja meu. Não há, nem nunca houve necessidade de se esconder por trás de nada, nem de ninguém. Havia, talvez, uma arrogância... a arrogância de não precisar sofrer.

Esclareço logo: é ridículo determinar sofrimento como rotina de vida. Mas do que falo é da coisa natural, da dor natural da vida. A dor de um parto; de uma febre; a dor causada por algo que realmente nos causa dor. A dor das tristezas necessárias da vida, das frustrações, dos desavanços; das feiuras. A dor que lembra quem somos.

Para minha total sorte, a vontade pela verdade não vai parar. Ela sempre se manteve no meio da noite, como hoje, quando não quero dormir. Para não ter que sonhar, não precisar acordar. Para, também, causar sono, falta de vontade, preguiça. Coisas que justificaram minha baixa valia, causaram a ausência do Amor.

Entupi minha noite de filmes românticos, querendo fantasiar com algo que.... algo que.... ainda não sei explicar. E me peguei reinventando uma vida para mim mesma, mas numa em que as decisões da minha felicidade partiam de outros. Ouvindo músicas para se lembrar de alguém que não há. Morrendo de saudades de algo que só eu inventei. Quando me dou conta, percebo que, na verdade, eu precisa descansar para encarar meu dia seguinte, um dia que eu poderia construir tudo que eu quisesse; mas já tinha gastado meu tempo desejando, mais uma vez, algo que eu nem queria.

Ah, que cansaço.

Eu não preciso mesmo de ninguém no meu coração. Ninguém além de mim. Pois o coração é habitação e quem possui a chave da casa é o seu dono. No meu sonho, eu estava na cama, sonhado, quando chega o desconhecido... que tem a chave.

A liberdade para mim não é uma opção. Felizmente. Sou obrigada a ser livre.

Até meu inconsciente grita.

Me envenenei com doces. Veja bem, não há nada de errado com os doces, quando eles realmente podem te saciar. Viver só de doces não alimenta a alma, eles só fazem sentido depois do arroz e feijão.

(por que procurei alguém para ocupar minha mente, quando eu já moro lá?)

Eu fugi do livro . Mas devia ter me livrado de outras coisas.

Eu optei por velhas histórias que nem cabiam mais pelos meus pés, não me passavam mais pela cabeça. Fui convencida de que era o que havia no momento - não seria merecedora de algo melhor. Eu optei por velhas histórias, que eu mesma sabia que não correspondiam a minha vontade. Por que fugi de abrir um livro novo, de ter novas histórias?

Provavelmente, há resposta para toda pergunta feita - algumas perguntas podem ter mesmo duas ou três ou zilhões de respostas.

Mas logo que me dou conta do meu equívoco, a graça em ver aquele episódio repetido, de uma coisa que fazia tanto sentino no nosso passado - mas que hoje não há valor algum para ela - é inexistente. Existe um livro novo, um presente, uma coisa que minha alma grita há anos. Do que me serve ignorá-lo? Todas as drogas que utilizei não me deram paz; e as desculpas em farrapos que decorei não me enganam mais.

Pois agora, fica marcado o início do fim do passado.

O livro é aberto. Adeus, minhas ficções. É por esse livro que terei acesso ao real.

Abro. Tudo tem volta, mas não desejo o retorno. Não é necessário desejar mais nada. Só quero ver, só quero ser.

Lendo as orelhas do livro, encontro uma ironia, uma sintonia: o livro trata do arquétipo da mulher selvagem atrás da análise de histórias - mitos, contos de fadas, etc. Usa a ficção para lidar com o real - uma vez que utilizei o meu real para habitar numa ficção.

Não é necessário desejar nada. Viver, isso sim, é necessário.

Habitar, conquistar meu coração. Isso é necessário.

Até porque, não há como entrar numa casa fechada, não honestamente, se não houver ninguém para atender a porta.

De longe, vejo a alcateia.

Coração



A noite parece longa - mas, em verdade, ela está apenas escura.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A des-conhecida


Hoje, tive um sonho. Eu não dormi muito, cheguei tarde em casa, mas tive uma soneca em que tive esse sonho. Eu estava dormindo na minha cama, quando alguém abria a porta da minha casa. Essa pessoa tinha a chave da minha casa... mas eu não sabia quem era. Eu não conseguia ver seu rosto - uma daquelas coisas de sonho. Eu, com muito esforço, consigo me levantar - lembrem-se, eu estava DORMINDO - e ir em sua direção. Eu estava morta de medo, mas tinha que saber quem invadia minha casa, quem tinha minha chave, quem era o desconhecido. Ele, na verdade, não vem atrás de mim, eu pouco importo, mas ele me causa um medo imenso, um PAVOR. Com uma imensa dificuldade, eu consigo chegar perto daquele desconhecido, cujo rosto era só um borrão branco, um homem de camisa branca na minha casa. Mas nunca consigo reconhecê-lo. Tento então acender as luzes, mas não consigo: primeiro, eu não consigo meus braços para alcançar o interruptor; quando consigo, é como se minha mão estivesse com caimbra, um formigamento... ela fica sem poder nenhum; quanto toco o interruptor, a luz não se acende.

Aliás, não estava escuro. Estava claro.

Por que eu não conseguia vê-lo? Por que tinha medo, se ele não me fez mal ALGUM?

Eu, então, ainda com pavor, chego perto... só vejo seu pescoço... ele me pareceu velho.

Eu estava em pânico. Rezo para ser um sonho e tento me esforçar para acordar. Acordo com pavor, olho para porta, verifico que estou na cama, deitada na mesma posição. Na minha frente, o indefectível acesso à internet....

Eu procuro pelo significado daquilo tudo - meu coração ainda batia no cavalgar do medo.

Na minha primeira pesquisa, encontro isso:

"Para ver um estranho em seu sonho, significa uma parte de si mesmo que é reprimido e escondido. Alternativamente, ele simboliza o ajudante sonho arquetípico que está tentando dar algumas dicas e conselhos."

( http://www.sonhossignificado.org/index.php?s=estranho )

Ficou lógico para mim. Ficou para vocês?

Algumas horas antes de entrar no meu blog, eu, integrada, busco nova pesquisa. Dessa vez me deparo com bobagens - e até suspeito do tal efeito fohrer - mas encontrei algo que satisfez meu coração:

"Ver uma pessoa desconhecida em seu sonho significauma parte de você mesmo que está oculta.
Ver um lugar desconhecido em seu sonho representa uma mudança em sua vida.
Se você está receoso ou perdido indica que você não está pronto para esta mudança.
Se você esta vontade ou feliz neste lugar desconhecido indica que você está pronto para a mudança."

( http://www.livrodosonho.com/significado-dos-sonhos-sonhar-com-desconhecido-2804.htm )

Ainda não iniciei o livro... mas creio que esse é o prólogo da minha jornada. Como já disse, que ninguém me aguarde como uma heroína rasgando as roupas e se jogando para o fogo. Na vida real, as pessoas evitam. Demoram. Atrasam-se. Tropeçam. Protelam. Gaguejam. Sonham em dizer uma coisa, dizem outra.

No meu sonho, meu medo me moveu para o desconhecido. Mas era para derrotá-lo, expulsá-lo. Não era para conhecê-lo.

Eu estava A P A V O R A D A. Talvez por isso não pude vê-lo, reconhecê-lo. O medo nos cega tanto...

Preparada ou não, eu iniciarei de qualquer forma essa jornada. Se até meu inconsciente se manifesta nesse sentido, eu já sei que é um sinal que preciso encarar. Eu procurei por "estranho", e um dos resultados me surgiu com a palavra "desconhecido". Como um analisadora nata, percebo imediatamente que a palavra vem com aquele prefixo "des-", um prefixo que dá uma sensação de passado, de história.

Percebam: uma casa inabitada é uma casa sem niguém. Mas uma casa desabitada é uma casa que já fora habitada... e que não é mais. Da mesma forma, penso que o desconhecido, em algum momento, já foi conhecido. E, por qualquer motivo, foi apagado da memória.

O desconhecido do sonho não me atacou, não me fez mal: eu é que queria fazer mal para ele, deliberadamente... por quê? Para quê?

Naturalmente, só EU posso fazer mal a mim mesma.

Essa luta vai ser braba.




domingo, 19 de fevereiro de 2012

Feijão



"- ... antigamente, eu era assim: "sobrou um pouco do feijão, vc quer?", daí eu me atirava...

- sim, sim - sorrindo - e hoje tu quer mais do que sobras, né?

- não, hoje eu sei fazer feijão."

O primeiro amor é o próprio.

Sobre esse blog - confissão, contrato, projeto


Uma introdução tardia sobre esse blog.

É difícil saber por onde ele começa... e nem sei se ele é um fim em si mesmo.

O tempo, além de não existir, também não é linear. Vários fatores me trouxeram até esse momento, como ondas simultâneas, mas não como um caminho estradinha - como o dessas fotos que eu gosto de colocar.

Eu nasci como um milagre. Sou um milagre. Mas essa força foi sendo esquecida, sugada, a ponto de parecer uma voz distante, como num sonho. As coisas não deram muito certo na adolescência. Depois de 17, não aguentei ser mais infeliz.
Esse pode ser considerado um dos inícios.

Não sei como, não sei onde, mas eu vi esse livro: "Mulheres que correm com os lobos". O livro, escrito por Clarissa Pinkola Estés, é de 1994. Eu apenas li esse título e sabia que se tratava de MIM. Sabia que havia algo para MIM nesse livro, mesmo sem ter noção do que ele se tratava.

Eu era uma mulher que corria com os lobos. Naquela época, então, eu direcionava muito isso ao fato de ter nascido numa família em que o poder masculino massacrava as individualidades. Como eu sobrevivi, me sentia ao lado deles, dos "lobos". Naturalmente, imatura e ainda muito controlada pelo meu vício do medo, eu julguei que os lobos eram negativos, embora eu desejasse o poder deles, e correr com eles. Os lobos eram, então, os homens da minha família, pessoas que durante esse tempo quiseram me manter aprisionada. Pessoas que não sabiam o que fazer com sua própria liberdade.

Apesar de desejá-lo, nunca comprei esse livro. Meu primeiro pensamento foi gerado e mantido pela minha baixa auto-estima: não me achava merecedora, nem que iria entendê-lo. O segundo pensamento, sempre fruto do primeiro, era que eu não queria mudar taaaaaaaaaaaaaaanto assim. Eu desejava a felicidade, mas não sabia o que fazer com ela. Eu desejava o amor, mas não sabia o que fazer com ele. Ainda preciso me perdoar sobre isso.

Os anos passaram, sempre havia uma desculpa para fugir desse livro. O preço. A linguagem. Outros objetivos no momento. Também, por livre e espontâneo medo, me associei a pessoas e a relações que me afastavam do que eu queria. Ainda me arrependo da minha demora.

Eu me casei, achando que aquilo era meu objetivo de vida. Meu lindo filho nasceu. E daí as correntes começaram a se quebrar - mesmo eu querendo me manter acorrentada. Meu filho me deu a verdade, algo que eu não poderia fingir que não estava vendo.

Meu filho foi a luz para todas as baratas ao meu redor. Ele afastou os sugadores de mim e me transformou no ser de luta que sou. Não por acaso, o nome do meu filho envolve o significado de "rei" e de "soldado". Era hora de eu assumir meu trono e lutar por ele. Erroneamente, algumas pessoas defendem que se deve fazer tudo sozinho. Não acreditem nisso, por favor! Não divulguem isso, peloamor! Nós só temos sentido em relação ao outro: mas não se confunda.Isso não quer dizer se esconder atrás do outro, nem viver em dependência. Isso quer dizer que aprender a conviver é uma das maiores força da liberdade.

Não foi com um rosto de heroína épica que mantive essa luta. Muitas vezes chorei. Quase nunca disse o que devia ser dito. Mas a simples presença do meu filho afastou o mal de mim. Como? Porque aqueles que estão cegos de infelicidade simplesmente não podem conviver com a realidade de que eles são responsáveis por isso. Eles não querem ser lembrados disso. Eu era - sou - uma mãe em 100%. Do momento em que meu filho nasceu, eu decidi ser melhor por ele. Isso surgiu sem a menor dor.

O que doeu foi ver minhas ilusões caindo... o casamento faliu. Amizades faliram. Pessoas sumiram, pessoas não achavam tão atraente quanto eu era simplesmente a "louquinha da festa" - algo que nunca fui, acreditem, mas que talvez precisasse ser para me achar alguém.

Eu ouvi tanta besteira naqueles dias... ouvi acusações e abandonos de pessoas que deveriam me proteger. Eu aceitei essas migalhas, pois ainda me via com desvalia. Aceitei desemprego, falta de dinheiro. Aceitei o pai do meu filho abandonando-o. Aceitei um ex-marido me caluniando. Aceitei um irmão me humilhando. Aceitei pessoas dizendo que eu "não sabia segurar um marido". Cunhadas desvalorizaram minha família. Amigos me dizendo que não me defenderiam. Eu não via outra opção a não ser aguentar.

Havia, sim, outra opção. Hoje, sei disso.

A magia do verdadeiro Amor é que ele te protege sempre. Com meu filho, eu aprendi o verdadeiro amor. A onda veio violenta, destruiu castelos de areia, mas deixou a superfície lisa, limpinha. Eu poderia fazer o que quisesse com ela. Foi quando comecei a ir atrás - DE VERDADE - do que eu queria.

Arranjei minha casa, um novo trabalho e cuidava do meu filho. Naquela época, então, a mulher que corria com os lobos não era uma mulher que queria ser igual aos seus inimigos. Eu trabalhava em um serviço essencialmente masculino, e, apesar de haver quem quisesse possuir nossas almas, eu e os lobos éramos colegas. Eu não corria tão rápido como eles - eles me ajudavam no caminho. Eu era uma mulher - mas as diferenças eram bem-vindas, pois na alcateia, nenhum lobo é igual ao outro. Enfim, eu fazia parte de um grupo - ainda que de uma forma tosca, pois era nova no hábito da coletividade. Aos poucos, foram surgindo aqueles que estiveram ao meu lado o tempo todo. Que nunca sairam, apesar de eu não notá-los tanto assim... apesar de eu valorizar outras coisas, tão poucas....

Foi um enorme passo.

Mas o caminho não é feito de um passo só.

Então, depois de quatro anos, surgiu minha outra Luz, minha outra filha. A essa altura, não havia mais o medo. Eu tinha passado por todas as turbulências. Vi que as pessoas que sumiram não tinham a menor importância. Os caluniadores não puderam com a verdade - e sempre aguarderei suas desculpas. Quando minha segunda filha nasceu, não houve correria, nem medo. Houve mais luz para meu caminho: pois, mesmo tendo vencido, eu me mantinha com certas ilusões... Mas as decepções não tinham mais a capacidade violenta de me jogar ao chão. Eu não me entrestecia. Eu apenas me cansava.

Não entresteci com o namorado que tive, quando ele começou a fazer bobagens. Eu me cansei. Da mesma forma, quando tentei retomar meu casamento e meu ex-marido - pai da minha segunda filha - estava apenas querendo tirar vantagem da situação, eu me cansei. Efetivamente, tive que dizer NÃO. Disse ao meu ex-marido que ele me fazia mal. Tive que dizer. Não consegui fazer isso com outros... ainda preciso.

Você percebe que a dor é fugir do padrão, do que sabemos. Eu poderia continuar com meu ex-marido dormindo na minha casa e dizendo que me amava pra sempre, para acordar "confuso"? Poderia continuar a vê-lo se retirar da sala para atender telefonemas "misteriosos"? Sim, eu passei por isso. Mas a vida é inevitável. Meus filhos, mais uma vez, me protegeram. E mesmo quando meu ex-marido tentou me atingir - como houvera feito anteriormente, com sucesso - ele não pode mais. O amor verdadeiro é um caminho sem volta.

Foi minha filha que possibilitou meu momento de hibernação, essencial para chegar onde estou agora.

Eu era tão amada de verdade - e me via tão merecedora disso - que não pude mais aceitar minhas próprias ilusões. Mas, ao mesmo tempo, eu não sabia como fazer diferente do que vinha fazendo. A hibernação veio para que eu nada fizesse. Para que eu realmente escutasse o meu corpo e o meu coração. Para parar de confundir atenção ou sexo com Amor. Para parar de negociar amor, pois o amor é INEGOCIÁVEL.

Foram quase dois anos hibernada, sem sair da minha caverna. Mas não a tomem por um lugar escuro: na minha caverna, eu não estava sozinha. Eu estava com a minha família, e eles me forneceram o necessário para que eu ficasse lá, com luz suficiente para ver o que eu deveria ver, se eu quisesse.

Nada foi mágico, nada foi em segundos, mas, quando aos poucos fui saindo da minha hibernação, saindo da minha personagem para assumir meu nome e o que sou, que os passos foram sendo dados. Lentamente, bem lentamente.

Vejam bem: não houve um resgate da SWAT. Ninguém foi correndo atrás de ninguém no aeroporto. Ninguém fez um discurso inflamado. Foi simplesmente um dia atrás do outro.

Foi em 2011 - nada mais cabalístico - que as coisas ganharam uma velocidade maior... Parecia que tudo ocorria naturalmente. Conheci pessoas. Me envolvi com elas. Pessoas lindas, inacreditáveis. Pessoas que sempre diz que quis conhecer.

Foi através de uma delas que retomei o livro. Na verdade, a minha guia foi Nana, minha MMA, sincera, linda, radiante. Ela não só tinha o livro como o lia e o AMAVA. Nana também corria com os lobos... ela me explicou o que isso significava. Não só isso: ela me mostrou a página de facebook da autora, Clarissa P. Estés, onde ela seguidamente nos engrandece com seus textos. E, notem, toda vez que Clarissa se dirige ao pública dela, ela o chama carinhosamente de Dear BraveSouls...

A velha Dandara pediu o livro emprestado, o que graças a Deus não aconteceu.

A nova Dandara sabia que deveria adquiri-lo.

No fim-começo, ela ganhou como presente de seu aniversário. Era um presente do universo para sua nova vida , era o primeiro ano de sua nova vida - o ciclo antigo se fechou.

Minha Guia, que é uma mulher muito decidida, havia criado um blog para que nós - ela gostava muito das coisas que eu postava no facebook - o Para você... guardei!!! .
Para você... guardei! é uma experiência fantástica, ótima para mim. É um compromisso que nunca antes havia experimentado: é um pacto comigo mesma. Nessa nova onda, eu assisti ao filme Julie&Julia, da Nora Ephron, que trata da história de uma mulher que, inspirada pelo livro de culinária de Julia Child, decide escrever um blog relantando suas experiências. Quando vi o filme, achei isso tão bobo... mas quando recebi o Mulheres... , eu já sabia que deveria fazer isso. Firmar o meu compromisso comigo mesma e manter esse contrato.


Por aqui vou imprimir o diário da minha viagem por mim mesma, uma tour para o autoconhecimento. E o que vem depois, graças a Deus, eu não tenho ideia.

Espero não ter cansado ninguém. A caminhada é longa, mas sempre poderemos parar para descansar.

Tempo

Eles sempre dizem que tudo acontece na hora que tem que. Acho tão desculpa para não fazer nada. O caminho não é fácil, estou fugindo dele, me agarrando a todo o meu passado, a tudo que pensei querer, tudo que achava que me deixava segura.

É mesmo preciso coragem para assumir quem somos, para assumir nossas mentiras tão confortáveis.

Mas tempo... Não. O tempo, esse sim, não existe. O tempo é inventado. O que há é a vida e todas as nossas oportunidades de aproveitá-la.

Meu conselho para minha alma corajosa: não acredite no tempo. Acredite na sua coragem.

Corajosa

A visão que nós temos de coragem é algo tão ilusório que quase nos impele a sermos medrosos o tempo todo. Acreditamos - ok, confesso, talvez seja só eu.... mas, será?- que a coragem e a decisão é algo instantâneo, heróico, com trompetes e olhares firmes. Mas não é. Isso é coisa de filme, novela.

A coragem não berra, não mata o inimigo no final. Ela caminha entre o medo e a bagunça da vida. Sim, às vezes a coragem pode cambalear, tropeçar, como não? É um sentimento HUMANO. A coragem existe, não é uma idealização. Logo, ela é tão real quanto nós.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Pronta



Bom dia, esse é o meu início.

É o primeiro passo do meu caminho, para a volta de dentro de mim. Não sei como será, não estipulei datas ou cronogramas, apenas meu objetivo: saber bem quem eu sou e saber bem o que quero. A única lei aqui será transmitir com o máximo de verdade meus achados, sentimentos e revelações.

Boa jornada.