Eles têm estado lá há algum tempo. É difícil perceber o quanto - até mesmo, se eu eu os havia notado. Ou em quanto são. Não consigo prever seus sentimentos - raiva, alegria, aflição. Apesar desse contato visual, da respiração a flor da pele, eu não sei nada, a não ser que fica cada vez mais óbvio que não há, nem nunca houve a intenção de ficarem escondidos, a espreita.
Resta, então, que quem me cobria era eu.
Com a frágil e rala consciência de mim, eu tento me olhar, mas sem um espelho, isso se torna uma tarefa infeliz. Eu ergo o meu olhar e novamente os percebo, nessa nova forma: eu me verei em seus olhos. Olhar para si também é olhar para o outro - e talvez, olhar para si seja apenas olhar para o outro. E se reconhecer.
***********************************************************************************************
Já disseram que o que odiamos nos outros é o que odiamos na gente mesmo, não foi? Tento sempre ter isso em mente. Que as minhas acusações sejam de crimes que EU cometi. Que o que não posso perdoar seja, em verdade, meus pecados. E tenho fugido tanto que só corrobora essa versão das coisas.
Os sonhos, então, são algo. Acordo sempre com medo. Um ou outro sentimento pode variar - nesse que me trouxe até o CaraAlma há resquícios de raiva - mas medo está muito marcado no meu corpo. Há sempre pavor, acordo agitada - geralmente, eu anseio pelo fim do sono e então desperto. A sensação é desagradável, a realidade dá um pouco de acolhimento, até eu me lembrar de tudo o que me cerca. E fugir é desnecessário - eu ainda estou dentro de mim.
Talvez essa coisa de autojornada seja uma grande guerra com o seu ego. O meu ego é o meu maior inimigo - é como vejo as coisas no momento. Gostaria de destruí-lo, quebrá-lo - ele me é como um espelho que só me mantém presa em mim mesmo. E eu quero ser livre em mim mesma. Quero ser livre em minhas roupas, nos meus risos, na minha raiva e na minha idiotice.
(Para quem se preocupar se isso dará certo, eu reafirmo que liberdade é um caminho sem volta. Estou sem escolha e estou feliz. Isso irá para onde irá, longo ou curto seja o caminha que se trilhe.)
Talvez essa coisa de autoconhecimento, na idade em que me encontro, seja como um exercício, como uma prática. O meu corpo também precisa de treinamento - o que nenhum livro ou insight pode dar. Ele precisa da experiência física para criar o seu instinto. Nesse caminho, apesar de manter mais fechado do que aberto, o meu corpo segue praticando sua liberdade.
Ele fica triste - não muito, é verdade, mas já consegue pronunciar as palavras "estou triste agora".
Ele se defende das risadas debochadas - coisa bem difícil, porque o movimento antigo era de rir também, depreciar-se também.
Ele diz não para uma situação repetitiva - é verdade que não usamos a verdade nesse caso. Mas a verdade envolvia todo um passado de mentiras... o corpo, que não tem tempo, apenas infância e velhice, achou por bem começar pelo presente, até para que todos os envolvidos, mesmo não compreendendo o passado, sintam que agora é o que interessa - e agora já mudou.
Ele exigiu respeito.
Ele liga para quem não perdoou - não tendo perdoado.
Veja bem, a jornada do corpo não é necessariamente a jornada da alma. As necessidades são diferentes, os compostos são diferentes. E é necessário contar-se com os dois.
Antigamente, eu confundia muito - o corpo e a alma. Errava nas minhas leituras - e errava nas leituras alheias. Porque, por muito tempo, eu não tinha poder sobre nenhum deles.... quando passei a ter decisões sobre eles, cometi muitos equívocos.
Eu alimentava o meu corpo em seus anseios - quando os anseios eram da alma. Por isso, passar dois anos sem escutar meu corpo fez que eu entendesse minha alma. Naturalmente, a alma e o corpo não são inimigos: conforme escutava a primeira, o segundo seguia na mesma melodia, harmoniosamente. Passar tanto tempo hibernando realmente ajudou a compreender e valorizar o acordar.
Resistir foi importante - as pessoas não entendiam por que eu não "aproveitava a vida" fazendo sexo com qualquer um que me aparecesse - ou qualquer um que me desejasse ou que eu desejasse. Poucos compreenderam que eu deveria ser mãe naquele momento - e ser mãe também era ser eu. Lidar com isso é importante - as pessoas não gostam de ser lembradas das mentiras que inventaram para si, elas se sente traídas, roubadas. Como eu mesmo tentei fazer no meu próprio sonho, nós, com medo, atacamos qualquer coisa que anuncie nossa libertação. É daí que vem aquela coisa que somos nosso maior inimigo.
Outra coisa que devo dizer: sobre a mensagem da minha prima. Veja bem, minha prima - minha família - é aquela outra opção que sempre ignorei. Eles sempre estiveram ali - mas não me amei suficiente para poder enxergar o poder do amor deles. Mas estamos vivos e ainda há tempo.
Minha prima me mandou uma linda mensagem quando soube que estava de partida nessa minha caminhada. Me dizendo coisas maravilhosas, próprio da natureza dela.
Mas algo me incomodou: algo sobre eu não ser séria, não parecer ser séria... isso é uma lenda, lenda antiga. Não, ela não foi a única. Toda minha vida teria sido assim.
Quando meu primeiro filho nasceu, isso ficou gritante, pois muitos vinham me elogiar minha determinação - surpresos pelo fato de eu ser uma boa mãe. Acho que eles pensavam que ia deixar a criança passando fome ou jogá-la em um latão. Só pode.
Apesar de isso me causar muita raiva - pois detesto ser acusada de algo que não fiz - comecei a considerar por que tantas pessoas acham isso. Sim, eu sempre fui taxada de louca ou maluca. Claro que há situações que fujo do normal, mas não é a maioria delas - pelo contrário. Eu nunca usei drogas - e só passei a beber álcool agora, coisa que quero reverter, pois não sou eu (era eu querendo agradar alguém). Fiz sexo sem amor muito menos do que as pessoas que me acusam. Não acredito em infidelidade. Acredito no que é certo - sim, pois existem coisas que são certas. Acho ser fraco, ou o elogio à fraqueza, um porre. Defendo a verdade e a honestidade - mesmo na época em que não fazia essas coisas muito bem. Eu era irresponsável sim. Mas também era outras coisas...
Como olhar para si também é olhar para os outros, com certa dificuldade, posso começar a perceber que também vestia uma máscara. Uma máscara tão forte e grande que permitiu que nunca me vissem como sou/era. Tão fabulosa que houvesse quem a invejasse. Como o meu corpo anda nú por aí, as pessoas quase nem reconhecem - elas esperam pela máscara. No passado, quando meu primeiro filho nasceu, isso me causou grande aflição. O abandono e o descaso das pessoas me feriu profundamente. Ainda estou aprendendo que quem nos abandona não pode valer grande coisa. E estou deixando ir - que grande atraso o meu, não é?
Ah, é uma grande alegria a tristeza. E se mostrar triste.
Eu tive essa experiência de carregar minha tristeza - sincera - e não ter vontade de fazer nada, nem de conversar com aquele gatinho. Não sei dizer como, mas me senti melhor do que simplesmente estivesse alegre.
Há sim um pacto que mantivemos todos esses momentos com essas pessoas... quebrou-se. Nesse momente, eu devo parecer uma estranha para elas. E a elas, eu pouco reconheço. Naturalmente, aquele desconhecido que em meu sonho entrou em minha casa passo a passinho - bem pequeno, vero - cada vez mais me é familiar.
Mais uma vez, se nota que na palavra re-conhecer, o prefixo traz a ideia de repetição... conhecer de novo. O que foi esquecido.
Resta, então, que quem me cobria era eu.
Com a frágil e rala consciência de mim, eu tento me olhar, mas sem um espelho, isso se torna uma tarefa infeliz. Eu ergo o meu olhar e novamente os percebo, nessa nova forma: eu me verei em seus olhos. Olhar para si também é olhar para o outro - e talvez, olhar para si seja apenas olhar para o outro. E se reconhecer.
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Já disseram que o que odiamos nos outros é o que odiamos na gente mesmo, não foi? Tento sempre ter isso em mente. Que as minhas acusações sejam de crimes que EU cometi. Que o que não posso perdoar seja, em verdade, meus pecados. E tenho fugido tanto que só corrobora essa versão das coisas.
Os sonhos, então, são algo. Acordo sempre com medo. Um ou outro sentimento pode variar - nesse que me trouxe até o CaraAlma há resquícios de raiva - mas medo está muito marcado no meu corpo. Há sempre pavor, acordo agitada - geralmente, eu anseio pelo fim do sono e então desperto. A sensação é desagradável, a realidade dá um pouco de acolhimento, até eu me lembrar de tudo o que me cerca. E fugir é desnecessário - eu ainda estou dentro de mim.
Talvez essa coisa de autojornada seja uma grande guerra com o seu ego. O meu ego é o meu maior inimigo - é como vejo as coisas no momento. Gostaria de destruí-lo, quebrá-lo - ele me é como um espelho que só me mantém presa em mim mesmo. E eu quero ser livre em mim mesma. Quero ser livre em minhas roupas, nos meus risos, na minha raiva e na minha idiotice.
(Para quem se preocupar se isso dará certo, eu reafirmo que liberdade é um caminho sem volta. Estou sem escolha e estou feliz. Isso irá para onde irá, longo ou curto seja o caminha que se trilhe.)
Talvez essa coisa de autoconhecimento, na idade em que me encontro, seja como um exercício, como uma prática. O meu corpo também precisa de treinamento - o que nenhum livro ou insight pode dar. Ele precisa da experiência física para criar o seu instinto. Nesse caminho, apesar de manter mais fechado do que aberto, o meu corpo segue praticando sua liberdade.
Ele fica triste - não muito, é verdade, mas já consegue pronunciar as palavras "estou triste agora".
Ele se defende das risadas debochadas - coisa bem difícil, porque o movimento antigo era de rir também, depreciar-se também.
Ele diz não para uma situação repetitiva - é verdade que não usamos a verdade nesse caso. Mas a verdade envolvia todo um passado de mentiras... o corpo, que não tem tempo, apenas infância e velhice, achou por bem começar pelo presente, até para que todos os envolvidos, mesmo não compreendendo o passado, sintam que agora é o que interessa - e agora já mudou.
Ele exigiu respeito.
Ele liga para quem não perdoou - não tendo perdoado.
Veja bem, a jornada do corpo não é necessariamente a jornada da alma. As necessidades são diferentes, os compostos são diferentes. E é necessário contar-se com os dois.
Antigamente, eu confundia muito - o corpo e a alma. Errava nas minhas leituras - e errava nas leituras alheias. Porque, por muito tempo, eu não tinha poder sobre nenhum deles.... quando passei a ter decisões sobre eles, cometi muitos equívocos.
Eu alimentava o meu corpo em seus anseios - quando os anseios eram da alma. Por isso, passar dois anos sem escutar meu corpo fez que eu entendesse minha alma. Naturalmente, a alma e o corpo não são inimigos: conforme escutava a primeira, o segundo seguia na mesma melodia, harmoniosamente. Passar tanto tempo hibernando realmente ajudou a compreender e valorizar o acordar.
Resistir foi importante - as pessoas não entendiam por que eu não "aproveitava a vida" fazendo sexo com qualquer um que me aparecesse - ou qualquer um que me desejasse ou que eu desejasse. Poucos compreenderam que eu deveria ser mãe naquele momento - e ser mãe também era ser eu. Lidar com isso é importante - as pessoas não gostam de ser lembradas das mentiras que inventaram para si, elas se sente traídas, roubadas. Como eu mesmo tentei fazer no meu próprio sonho, nós, com medo, atacamos qualquer coisa que anuncie nossa libertação. É daí que vem aquela coisa que somos nosso maior inimigo.
Outra coisa que devo dizer: sobre a mensagem da minha prima. Veja bem, minha prima - minha família - é aquela outra opção que sempre ignorei. Eles sempre estiveram ali - mas não me amei suficiente para poder enxergar o poder do amor deles. Mas estamos vivos e ainda há tempo.
Minha prima me mandou uma linda mensagem quando soube que estava de partida nessa minha caminhada. Me dizendo coisas maravilhosas, próprio da natureza dela.
Mas algo me incomodou: algo sobre eu não ser séria, não parecer ser séria... isso é uma lenda, lenda antiga. Não, ela não foi a única. Toda minha vida teria sido assim.
Quando meu primeiro filho nasceu, isso ficou gritante, pois muitos vinham me elogiar minha determinação - surpresos pelo fato de eu ser uma boa mãe. Acho que eles pensavam que ia deixar a criança passando fome ou jogá-la em um latão. Só pode.
Apesar de isso me causar muita raiva - pois detesto ser acusada de algo que não fiz - comecei a considerar por que tantas pessoas acham isso. Sim, eu sempre fui taxada de louca ou maluca. Claro que há situações que fujo do normal, mas não é a maioria delas - pelo contrário. Eu nunca usei drogas - e só passei a beber álcool agora, coisa que quero reverter, pois não sou eu (era eu querendo agradar alguém). Fiz sexo sem amor muito menos do que as pessoas que me acusam. Não acredito em infidelidade. Acredito no que é certo - sim, pois existem coisas que são certas. Acho ser fraco, ou o elogio à fraqueza, um porre. Defendo a verdade e a honestidade - mesmo na época em que não fazia essas coisas muito bem. Eu era irresponsável sim. Mas também era outras coisas...
Como olhar para si também é olhar para os outros, com certa dificuldade, posso começar a perceber que também vestia uma máscara. Uma máscara tão forte e grande que permitiu que nunca me vissem como sou/era. Tão fabulosa que houvesse quem a invejasse. Como o meu corpo anda nú por aí, as pessoas quase nem reconhecem - elas esperam pela máscara. No passado, quando meu primeiro filho nasceu, isso me causou grande aflição. O abandono e o descaso das pessoas me feriu profundamente. Ainda estou aprendendo que quem nos abandona não pode valer grande coisa. E estou deixando ir - que grande atraso o meu, não é?
Ah, é uma grande alegria a tristeza. E se mostrar triste.
Eu tive essa experiência de carregar minha tristeza - sincera - e não ter vontade de fazer nada, nem de conversar com aquele gatinho. Não sei dizer como, mas me senti melhor do que simplesmente estivesse alegre.
Há sim um pacto que mantivemos todos esses momentos com essas pessoas... quebrou-se. Nesse momente, eu devo parecer uma estranha para elas. E a elas, eu pouco reconheço. Naturalmente, aquele desconhecido que em meu sonho entrou em minha casa passo a passinho - bem pequeno, vero - cada vez mais me é familiar.
Mais uma vez, se nota que na palavra re-conhecer, o prefixo traz a ideia de repetição... conhecer de novo. O que foi esquecido.
Chega de deixar qualquer um entrar na minha casa.


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