domingo, 19 de fevereiro de 2012

Sobre esse blog - confissão, contrato, projeto


Uma introdução tardia sobre esse blog.

É difícil saber por onde ele começa... e nem sei se ele é um fim em si mesmo.

O tempo, além de não existir, também não é linear. Vários fatores me trouxeram até esse momento, como ondas simultâneas, mas não como um caminho estradinha - como o dessas fotos que eu gosto de colocar.

Eu nasci como um milagre. Sou um milagre. Mas essa força foi sendo esquecida, sugada, a ponto de parecer uma voz distante, como num sonho. As coisas não deram muito certo na adolescência. Depois de 17, não aguentei ser mais infeliz.
Esse pode ser considerado um dos inícios.

Não sei como, não sei onde, mas eu vi esse livro: "Mulheres que correm com os lobos". O livro, escrito por Clarissa Pinkola Estés, é de 1994. Eu apenas li esse título e sabia que se tratava de MIM. Sabia que havia algo para MIM nesse livro, mesmo sem ter noção do que ele se tratava.

Eu era uma mulher que corria com os lobos. Naquela época, então, eu direcionava muito isso ao fato de ter nascido numa família em que o poder masculino massacrava as individualidades. Como eu sobrevivi, me sentia ao lado deles, dos "lobos". Naturalmente, imatura e ainda muito controlada pelo meu vício do medo, eu julguei que os lobos eram negativos, embora eu desejasse o poder deles, e correr com eles. Os lobos eram, então, os homens da minha família, pessoas que durante esse tempo quiseram me manter aprisionada. Pessoas que não sabiam o que fazer com sua própria liberdade.

Apesar de desejá-lo, nunca comprei esse livro. Meu primeiro pensamento foi gerado e mantido pela minha baixa auto-estima: não me achava merecedora, nem que iria entendê-lo. O segundo pensamento, sempre fruto do primeiro, era que eu não queria mudar taaaaaaaaaaaaaaanto assim. Eu desejava a felicidade, mas não sabia o que fazer com ela. Eu desejava o amor, mas não sabia o que fazer com ele. Ainda preciso me perdoar sobre isso.

Os anos passaram, sempre havia uma desculpa para fugir desse livro. O preço. A linguagem. Outros objetivos no momento. Também, por livre e espontâneo medo, me associei a pessoas e a relações que me afastavam do que eu queria. Ainda me arrependo da minha demora.

Eu me casei, achando que aquilo era meu objetivo de vida. Meu lindo filho nasceu. E daí as correntes começaram a se quebrar - mesmo eu querendo me manter acorrentada. Meu filho me deu a verdade, algo que eu não poderia fingir que não estava vendo.

Meu filho foi a luz para todas as baratas ao meu redor. Ele afastou os sugadores de mim e me transformou no ser de luta que sou. Não por acaso, o nome do meu filho envolve o significado de "rei" e de "soldado". Era hora de eu assumir meu trono e lutar por ele. Erroneamente, algumas pessoas defendem que se deve fazer tudo sozinho. Não acreditem nisso, por favor! Não divulguem isso, peloamor! Nós só temos sentido em relação ao outro: mas não se confunda.Isso não quer dizer se esconder atrás do outro, nem viver em dependência. Isso quer dizer que aprender a conviver é uma das maiores força da liberdade.

Não foi com um rosto de heroína épica que mantive essa luta. Muitas vezes chorei. Quase nunca disse o que devia ser dito. Mas a simples presença do meu filho afastou o mal de mim. Como? Porque aqueles que estão cegos de infelicidade simplesmente não podem conviver com a realidade de que eles são responsáveis por isso. Eles não querem ser lembrados disso. Eu era - sou - uma mãe em 100%. Do momento em que meu filho nasceu, eu decidi ser melhor por ele. Isso surgiu sem a menor dor.

O que doeu foi ver minhas ilusões caindo... o casamento faliu. Amizades faliram. Pessoas sumiram, pessoas não achavam tão atraente quanto eu era simplesmente a "louquinha da festa" - algo que nunca fui, acreditem, mas que talvez precisasse ser para me achar alguém.

Eu ouvi tanta besteira naqueles dias... ouvi acusações e abandonos de pessoas que deveriam me proteger. Eu aceitei essas migalhas, pois ainda me via com desvalia. Aceitei desemprego, falta de dinheiro. Aceitei o pai do meu filho abandonando-o. Aceitei um ex-marido me caluniando. Aceitei um irmão me humilhando. Aceitei pessoas dizendo que eu "não sabia segurar um marido". Cunhadas desvalorizaram minha família. Amigos me dizendo que não me defenderiam. Eu não via outra opção a não ser aguentar.

Havia, sim, outra opção. Hoje, sei disso.

A magia do verdadeiro Amor é que ele te protege sempre. Com meu filho, eu aprendi o verdadeiro amor. A onda veio violenta, destruiu castelos de areia, mas deixou a superfície lisa, limpinha. Eu poderia fazer o que quisesse com ela. Foi quando comecei a ir atrás - DE VERDADE - do que eu queria.

Arranjei minha casa, um novo trabalho e cuidava do meu filho. Naquela época, então, a mulher que corria com os lobos não era uma mulher que queria ser igual aos seus inimigos. Eu trabalhava em um serviço essencialmente masculino, e, apesar de haver quem quisesse possuir nossas almas, eu e os lobos éramos colegas. Eu não corria tão rápido como eles - eles me ajudavam no caminho. Eu era uma mulher - mas as diferenças eram bem-vindas, pois na alcateia, nenhum lobo é igual ao outro. Enfim, eu fazia parte de um grupo - ainda que de uma forma tosca, pois era nova no hábito da coletividade. Aos poucos, foram surgindo aqueles que estiveram ao meu lado o tempo todo. Que nunca sairam, apesar de eu não notá-los tanto assim... apesar de eu valorizar outras coisas, tão poucas....

Foi um enorme passo.

Mas o caminho não é feito de um passo só.

Então, depois de quatro anos, surgiu minha outra Luz, minha outra filha. A essa altura, não havia mais o medo. Eu tinha passado por todas as turbulências. Vi que as pessoas que sumiram não tinham a menor importância. Os caluniadores não puderam com a verdade - e sempre aguarderei suas desculpas. Quando minha segunda filha nasceu, não houve correria, nem medo. Houve mais luz para meu caminho: pois, mesmo tendo vencido, eu me mantinha com certas ilusões... Mas as decepções não tinham mais a capacidade violenta de me jogar ao chão. Eu não me entrestecia. Eu apenas me cansava.

Não entresteci com o namorado que tive, quando ele começou a fazer bobagens. Eu me cansei. Da mesma forma, quando tentei retomar meu casamento e meu ex-marido - pai da minha segunda filha - estava apenas querendo tirar vantagem da situação, eu me cansei. Efetivamente, tive que dizer NÃO. Disse ao meu ex-marido que ele me fazia mal. Tive que dizer. Não consegui fazer isso com outros... ainda preciso.

Você percebe que a dor é fugir do padrão, do que sabemos. Eu poderia continuar com meu ex-marido dormindo na minha casa e dizendo que me amava pra sempre, para acordar "confuso"? Poderia continuar a vê-lo se retirar da sala para atender telefonemas "misteriosos"? Sim, eu passei por isso. Mas a vida é inevitável. Meus filhos, mais uma vez, me protegeram. E mesmo quando meu ex-marido tentou me atingir - como houvera feito anteriormente, com sucesso - ele não pode mais. O amor verdadeiro é um caminho sem volta.

Foi minha filha que possibilitou meu momento de hibernação, essencial para chegar onde estou agora.

Eu era tão amada de verdade - e me via tão merecedora disso - que não pude mais aceitar minhas próprias ilusões. Mas, ao mesmo tempo, eu não sabia como fazer diferente do que vinha fazendo. A hibernação veio para que eu nada fizesse. Para que eu realmente escutasse o meu corpo e o meu coração. Para parar de confundir atenção ou sexo com Amor. Para parar de negociar amor, pois o amor é INEGOCIÁVEL.

Foram quase dois anos hibernada, sem sair da minha caverna. Mas não a tomem por um lugar escuro: na minha caverna, eu não estava sozinha. Eu estava com a minha família, e eles me forneceram o necessário para que eu ficasse lá, com luz suficiente para ver o que eu deveria ver, se eu quisesse.

Nada foi mágico, nada foi em segundos, mas, quando aos poucos fui saindo da minha hibernação, saindo da minha personagem para assumir meu nome e o que sou, que os passos foram sendo dados. Lentamente, bem lentamente.

Vejam bem: não houve um resgate da SWAT. Ninguém foi correndo atrás de ninguém no aeroporto. Ninguém fez um discurso inflamado. Foi simplesmente um dia atrás do outro.

Foi em 2011 - nada mais cabalístico - que as coisas ganharam uma velocidade maior... Parecia que tudo ocorria naturalmente. Conheci pessoas. Me envolvi com elas. Pessoas lindas, inacreditáveis. Pessoas que sempre diz que quis conhecer.

Foi através de uma delas que retomei o livro. Na verdade, a minha guia foi Nana, minha MMA, sincera, linda, radiante. Ela não só tinha o livro como o lia e o AMAVA. Nana também corria com os lobos... ela me explicou o que isso significava. Não só isso: ela me mostrou a página de facebook da autora, Clarissa P. Estés, onde ela seguidamente nos engrandece com seus textos. E, notem, toda vez que Clarissa se dirige ao pública dela, ela o chama carinhosamente de Dear BraveSouls...

A velha Dandara pediu o livro emprestado, o que graças a Deus não aconteceu.

A nova Dandara sabia que deveria adquiri-lo.

No fim-começo, ela ganhou como presente de seu aniversário. Era um presente do universo para sua nova vida , era o primeiro ano de sua nova vida - o ciclo antigo se fechou.

Minha Guia, que é uma mulher muito decidida, havia criado um blog para que nós - ela gostava muito das coisas que eu postava no facebook - o Para você... guardei!!! .
Para você... guardei! é uma experiência fantástica, ótima para mim. É um compromisso que nunca antes havia experimentado: é um pacto comigo mesma. Nessa nova onda, eu assisti ao filme Julie&Julia, da Nora Ephron, que trata da história de uma mulher que, inspirada pelo livro de culinária de Julia Child, decide escrever um blog relantando suas experiências. Quando vi o filme, achei isso tão bobo... mas quando recebi o Mulheres... , eu já sabia que deveria fazer isso. Firmar o meu compromisso comigo mesma e manter esse contrato.


Por aqui vou imprimir o diário da minha viagem por mim mesma, uma tour para o autoconhecimento. E o que vem depois, graças a Deus, eu não tenho ideia.

Espero não ter cansado ninguém. A caminhada é longa, mas sempre poderemos parar para descansar.

2 comentários:

  1. Querida alma corajosa... realmente muito emocionante esse teu relato! Sim, tudo começa com uma intenção, mas não se concretiza sem um sincero contrato e um belo projeto! Sigo te acompanhando, aprendendo muito e - claro - chorando como nunca!!!!

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  2. não gosto quando vc chora.... mas quero te ter sempre do meu lado.

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