segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O lobo

"... O lobo  ficou chateado
 de ver aquela Menina
olhando pra cara dele, 
só que seM o Medo dele.
Ficou MesMo envergonhado, 
triste, Murcho e branco-azedo,
porque o logo, tirado o Medo, 
é uM arreMedo de lobo.
É feito uM lobo seM pelo.
Lobo pelado."

Chico Buarque,  "Chapeuzinho AMarelo"

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Nascemos com pele e nos depilamos...

Não sei que troço foi esse que eu tomei no domingo à noite.... seus efeitos ainda estão em mim, ora me sinto supermário, ora parece que broxei. Creio que só os loucos poderão me entender e, ainda assim, não vão saber bem do que eu estou falando....

... conforme o efeito da droga vai passando, vou experimentando a sensação de que estive numa armadilha, que tudo fora armado. Ele havia me levado ao seu palco, ao seu terreno, e eu, dona de um ego que é uma tromba, não pude resistir a uma ilusãozinha que fosse. Eu me devorei em todas as coisas que ele me ofereceu.

Já chamarei de vitória eu ter saído de casa não para procurar, mas para encontrar, ainda que tivesse chegado tarde. E ainda que de todos os teste, só em um eu tenha passado....

Ainda assim, ainda assim. Botões foram apertados.

Eu estou bem louca e totalmente no descontrole de mim.

domingo, 12 de agosto de 2012

Eu toco na minha pele, sinto no espelho: sou bela.

Na verdade, não é bem isso: eu não vejo mais a beleza....

Beleza não existe efetivamente. O que existe é o que somos e o que queremos ser.

Eu olho no espelho... aquela mulher é a mesma. É difícil dizer o que mudou. Na verdade, ela já tem linhas de expressão, ela já tem manchas que talvez nunca saiam de seu rosto.

E aquela mulher.... é tão divina. Ela representa tão bem Deus.

E suas mãos e sua pele seca.... hidrataram-se no Amor conforme ela foi aprendendo a se alimentar do poço da sua essência.

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Agora vem a parte 2. E lidar com tudo isso? Com toda essa força?

Quando se abre os olhos e para de brincar, os falsos amigos se tornam predadores sanguinolentos. E a solidão pode se aplacar - pois antes "feia" com minhas culpas e dores para brincar do que.... Assim, linda. Linda e tendo que ser honesta o tempo todo.

Eu sinto que os homens querem me sugar.... eles querem algo, algum poder que eu tenho. Eles querem algo não saudável, não bom. Eles precisam me controlar de alguma forma, eles querem meu poço em poção, enjaulados em um vidro perverso.... o vidro que não é espelho é perverso em todos os sentidos. Pois não há verso. Há a ilusão da liberdade no vidro: veja, veja, vc está livre, vc pode sentir o sol, pode ver a areia e o mar. Pelo vidro, vê-se tudo. E se prostitui nosso poder da visão.

E eles buscam em mim algo que não podem recriar em si mesmos. Que homem que é bonito? Qual é o homem que busca uma mulher que ele denomina feia - portanto, inferior?

Ninguém mais sugará minha Beleza, eu juro.

... mas não é fácil se acostumar com a marca de vazio nas paredes das fotos dos santos que deixei de louvar.
Foi mesmo preciso que houvesse essa parada, esse refresco da medicação. Acho que só assim pude entender e vislumbrar tão bem: eu nunca amei ninguém.

Dramática, né?

Quis dizer que meus relacionamentos,todos, nenhum foi de verdade. Porque eu nem sabia quem eu era. Eu nem poderia me assumir. E nenhum deles estava realmente interessado nisso.

Porque eu só lidava com salvadores da pátria e príncipes encantados.

Porque eu só queria alguém para colorir minhas projeções e egos. minhas preguiças.

Porque eu não procurava alguém. Eu me escondia.

Porque eu não procurava alguém. Eu usava para saciar minha fome.

Porque eu não saciava minha fome.

Eu....
... sei lá o que estava fazendo.

Precisava que decretassem a minha beleza, a minha boa vontade e todas as ilusões a meu respeito.

Eu queria um publicitário para facilitar minha vida com um marketing sem-vergonha.

Eu queria uma central de tele atendimento para atender minhas ligações, para lidar com os defeitos que eu não estava a fim de resolver.

Eu peço desculpa e peço perdão. Eu fui realmente agente nisso tudo.

Ao mesmo tempo, não há o que perdoar ou desculpar. Não era livre e nem tinha como ser. É algo do caráter e não é. É algo a se relevar e não é.

Eu não era livre. E nunca houve jaula alguma.

É impossível ser melhor sozinho


Por que não rastejamos?
Por que não farejamos?
Somos feitos para isso

Nascemos com pelos e nos depilamos...

Que lógica é essa?

Criamos a beleza apenas para disputá-la
Vestimos a Beleza, que é patrimônio individual
inalienável
imensurável
único

Eu e tu e ele e ela
nós todos e tudo

Para que negarmos isso? Para quer ser melhor que alguém?

Ninguém sabe dizer se veio o ovo ou a galinha.
Quem é que pode desenhar essa linha de partida?
e quem disse que era uma corrida?
Não quero viver de chegadas, nem pegadas

Eu e tu e ele e ela
nós todos e todas e tudo:
celebre-se
 

A Loba

Existe a história da velha senhora que cata os ossos da beira da estrada, os junta e canta para que se crie a carne e a vida.
Deus sabe como é difícil ter a coragem para se nascer.
Estamos sempre dispostos a ser paridos, mas nunca dispostos a se reconstituir, a se fazer.
Sim, FAZER - e não refazer.

Pois Deus, Jeová, Allah, uscambau deu-me mais do que ossos. Na verdade, já me deu uma pele também, que eu empaturrei com gordurinhas e outras coisas desnecessárias. Deu-me um cabelo que só precisava de água e carinho para nascer - e essas duas coisas essenciais eu lhe neguei.

Eu não criei a canção.
Eu não nasci.

Então, vivi de favores e da carência alheia até então.

Eu não voltei porque nunca fui. Quando eu puder dizer que sou, então poderei ir e vir. Então, terei escolhas.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Feche a porta do seu quarto

Às vezes, eu sinto falta daquela pessoa com quem contar todas as coisas do dia, dia após dia... aquela pessoa para comentar como tava lindo o sol na redenção, na hora que eu voltava para casa - ou falar daquela música cuja as palavras se entralaçavam tão junto que me pegou direitinho...

Eu nem sei muito bem porque sinto falta da pessoa que nunca tive. Houve momentos assim, mas eram mais fenômenos do que momentos.

Com pessoas que nunca mais vi. Com pessoas que nunca mais teria aquela ligação instantânea. Com pessoas que mentiram. Com pessoas que estavam usando essa carência minha para obter lucro próprio.

Acho que gostaria que essa pessoa existisse.

terça-feira, 27 de março de 2012

Autoconvivência


É difícil conviver comigo... que grande desafio.

Não é nada fácil. É ter saco para indagações, suspeitas, exigências, carências, verdades absolutas... ela não existe, alguém diria.

São 24 horas consecutivas, dia após dia, de ondas devastadores de medo, certezas e coragens.

Honestamente, nem eu sei como ela aguenta.

Eu sou real, creiam: acreditem que eu sou real; acreditem em mim, pois sou real.

Não sou tolerável nem nas CNPTs. Quantas e quantas vezes preciso me afastar para não machucar alguém, para que minha infatilidade não machuque ninguém?

E, por Deus, por que eu não consigo deixar de falar o que me chega à cabeça?? Por Deus, deixe as pobres almas em paz, elas não precisam desse tipo de luz, essa luz de acusação, de sala de interrogatório....

Sou atormentadora. Até que não é difícil ser eu, uma vez que nasci assim. Agora, conviver comigo... já é outra história.




Sumiço


... por onde tens andado? Por que não me manda mais notícias, por que sumiste?

Passou a novidade e eu fiquei sem graça pra ti?

Arranjaste novas companhias? Desinteressastes?

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Não, mesmo, minha alma corajosa.

Tu nunca saistes de mim.

muitas e muitas vezes, escrevi no coração... escrevi na cabeça. Escrevi sem escrever. Sempre esteves aqui. Nunca saí de ti.

É que chegou a vida, sua grande onda de dores e decepções... sua grande onda de rotina e deveres. Eu era um monge no alto da minha montanha. E agora, consigo? Consigo?

Contigo, consigo.

Já te disse: estou condenada a ser livre.


terça-feira, 20 de março de 2012

mais do mesmo

Gostaria de saber onde eu deveria mudar, trocar, largar para não ter mais do mesmo? Eu faria, faria com certeza - já não estou mais apegada ao meu orgulho, já não me escondo atrás do meu ego e do meu medo.

O que não estou aprendendo?

O que é que
me falta?


domingo, 18 de março de 2012

Status: aprendendo



Higher Ground


Every hour of every day I'm learning more
The more I learn, the less I know about before
The less I know, the more I want to look around
Digging deep for clues on higher ground

Moon and stars sit way up high
Earth and trees beneath them lie
The wind blows fragant lullaby
To cool the night for you and I

On the wind the birds fly free
Leviathan tames angry sea
The flower waits for honeybee
The sunrise wakes new life in me

Every hour of every day I'm learning more
The more I learn, the less I know about before
The less I know, the more I want to look around
Digging deep for clues on higher ground

The fishes swim while rivers run
Through fields to feast my eyes upon
Intoxicated drinking from
The loving cup of burning sun

In dreams I'll crave familiar taste
Of whispered rain on weary face
Of kisses sweet and warm embrace
Another time another place

And every hour of every day I'm learning more
The more I learn, the less I know about before
The less I know, the more I want to look around
Digging deep for clues on higher ground

Imenso Terreno


Todas as horas de todos os dias eu estou aprendendo mais
Quanto mais eu aprendo, menos eu sei sobre antes
Quanto menos eu sei, mais eu quero olhar por aí
Escavando profundamente por pistas neste imenso terreno

Lua e estrelas acomodam-se no alto
Terra e árvores acobertam suas mentiras
O vento sopra uma fragrância de ninar
Para esfriar a noite a você e eu

No vento os pássaros voam livres
Leviathan irrita o mar
A flor espera pela abelhas
O amanhecer desperta uma nova vida em mim

Todas as horas de todos os dias eu estou aprendendo mais
Quanto mais eu aprendo, menos eu sei sobre antes
Quanto menos eu sei, mais eu quero olhar por aí
Escavando profundamente por pistas neste imenso terreno

Os peixes nadam enquanto os rios correm
Através dos campos festejam meus olhos
Bebendo intoxicado pelo
Amoroso copo de sol ardente

Nos sonhos eu imploro pelo gosto familiar
Da confidenciada chuva no rosto cansado
Dos beijos doces e abraços quentes
Em outra hora, em outro lugar

Todas as horas de todos os dias eu estou aprendendo mais
Quanto mais eu aprendo, menos eu sei sobre antes
Quanto menos eu sei, mais eu quero olhar por aí
Escavando profundamente por pistas neste imenso terreno

Universo, meu amigo


É engraçado, o universo nos protege de nós mesmos. eu estava naquela de preguiça e fuga de mim mesmo e das coisas reais que valem a pena na vida. Burrice e teimosia, é terrível.

Quantas vezes a gente precisa levar na cara?

Lá estava eu, pronta para me arrastar por qualquer restinho...

E cheguei a me arrastar, um pouco. Então, Deus, sabiamente, deu-me o que pedi. Não era apenas resto. Estava, além de tudo, estragado. Dei-me conta: era preferível passar fome.

E eu nem estava com fome, era só aquela necessidade ansiosa de se saciar, de preencher vazios.... mas todos nós precisamos dos nossos vazios. Precisamos desses lugares desocupados para que possamos guardar outras coisas, outras novidades ou simplesmente algo que cresce, que vai modificando e vai precisando de mais espaço. Precisamos desses vazios para qualquer emergência, para quando nos sentimos sem saída, sufocados, acuados. Para arquivos temporários. Para arquivos permanentes.

Todo espaço vazio é válido.

Nessa madrugada, me livrei de vez de uma velha bomba. Ganhei um lindo vazio.

sábado, 17 de março de 2012

A recaída

Eu sentia que estava estranha esses dias... ciumenta, insegura... e cuidando menos de mim. Sempre se pode saber de uma pessoa pelo tempo que ela gasta com ela mesma. Parecia que eu estava com fome e, como não havia nada da geladeira - pois eu já havia jogado fora o que estava estragado, e quase tudo estava.... - revirei o lixo atrás daquilo que já havia despejado.

Eu revirei o lixo, eu revirei o lixo. Sinto-me um fracasso.

Tive ciúme de pessoas que não me valorizaram... quis ter a atenção - que pouco tive antes - delas. Quis qualquer coisa, de novo.

Hoje, eu olho no espelho e, a cada dia que passa, eu fico satisfeita com o que eu vejo. Nesses últimos dias, em que não andei me cuidando, temi ficar feia de novo. Ficar mais ou menos. Ficar pouco.

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sexta-feira, 16 de março de 2012

Vírus


Não acredito no ciúme como forma de amor ou demonstração de amor.
Não credito ao ciúme qualquer elogio.

Fui extremamente ciumenta por anos. Era apenas o cimento da minha prisão. Era um sentimento baixo, vil, pouco. Eu não merecia, ninguém merecia. Impediu que meu amor-próprio germinasse cada chance de semente que conseguia aflorar de meu coração.

Acredito que a gente nasça com o Amor instalado. Por algum motivo, no entanto, ele vai sendo lascado ao ponto de ficar invisível ao olho nu. O ciúme é uma das ferramentas utilizadas para isso. Não quero dizer que o ciúme é a ausência do sentimento bom: quero dizer que ele é um vírus, uma doença, quero dizer que ele vai tirando pedaços, arranhando, despedaçando o que há de bom no seu portador.

Eu era uma boa pessoa, disfarçada de ciumenta. Eu deixei, várias e várias vezes, que isso fosse a maior parte de mim. Eu realmente amei todas as pessoas com as quais me relacionei - infelizmente, meu ciúme, longe de ser a melhor manifestação disso, era apenas meu ego sobremanifestando-se sobre meu coração, mantendo-o amendrontado, covarde e inseguro.

A pior parte é que a vítima sempre fui eu. Sim.

Como num viciado em drogas ou qualquer coisa.

Os danos só foram meus. Perdi tanto tempo.

Perdi tempo com pessoas que diziam admirar minhas qualidades, mas apenas queriam utilizar minhas fraquezas para sentirem-se melhores. Nunca vi um namorado meu assumir qualquer responsabilidade de qualquer erro, simplesmente porque a ciumenta era eu.

Sim, todos eram ciumentos. Inseguros. Infelizes.

Hoje, percebo bem que apenas fui utilizada para satisfazer uma situação, manter a dinâmica de um jogo chamado "brincar de viver": eu finjo que estou vivendo, faço de conta, mas não consigo, porque o outro não deixa. Obviamente, eu jogava junto. Ora sendo a vilã, ora não vivendo também. Arrependo-me muito de não ter vivido, mas estou bem longe de ter o poder de impedir qualquer pessoa de viver.

Isso fica tão óbvio que, quando se quer parar de jogar, nunca há a tal paz imaginada. Quando o outro sempre ACUSA a outra parte de ser causadora de todos os males da relação, no caso dessa doença, é importantíssimo que essa causa seja sustentada: ou seja, o outro CONTA, PRECISA do teus sintomas - ou senão ele será forçado a visualizar a realidade indesejável. Enquanto fui ciumenta, a relação se manteve - tendo EU sempre como a culpada de TODAS as brigas. Quando decidi não ser mais, o outro mudou e não pode mais manter-se comigo - ele foi atrás de outro vírus para se proteger de ser um adulto. Isso foi no meu casamento e em inúmeras relações que eu tive.

E é tão forte que não consigo dizer se fui amada ou não. Tendo a dizer que não, mas pode ser que o Amor estivesse ali, escondido, subterrâneo. Pode ser que o ego do outro fosse apenas uma grande massa de mofo, acobertando-o. Todavia, cada um que cuide dos seus mofos.

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Não me entendi sentindo ciúmes de gente que nem quero mais na minha vida. Aliás, não me entendo sentindo ciúmes daqueles que sei que amo. Que será isso? O vírus estava latente? Ele voltará a me dominar?

Eu temo tanto que sim....

Ao mesmo tempo, me sinto um fracasso, pois isso é um sinal de que não estou madura, não estou liberta. O meu ego pode falar mais alto do que meu coração. Não quero essa vida de novo.

Não quero. Todavia, nunca passei por isso antes. A única coisa que consigo fazer é que já tinha feito.

terça-feira, 13 de março de 2012

Sin Miedo





Sin miedo sientes que la suerte está contigo
Jugando con los duendes abrigándote el camino
Haciendo a cada paso lo mejor de lo vivido
Mejor vivir sin miedo

Sin miedo

lo malo se nos va volviendo bueno
Las calles se confunden con el cielo
Y nos hacemos aves, sobrevolando el suelo, así

Sin miedo

si quieres las estrellas vuelco el cielo
No hay sueños imposibles ni tan lejos
Si somos como niños

Sin miedo a la locura, sin miedo a sonreir

Sin miedo sientes que la suerte está contigo
Jugando con los duendes abrigándote el camino
Haciendo a cada paso lo mejor de lo vivido
Mejor vivir sin miedo


Sin miedo

las olas se acarician con el fuego
Si alzamos bien las yemas de los dedos
Podemos de puntillas tocar el universo, así

Sin miedo

las manos se nos llenan de deseos
Que no son imposibles ni están lejos
Si somos como niños

Sin miedo a la ternura

sin miedo a ser feliz

Sin miedo sientes que la suerte está contigo
Jugando con los duendes abrigándote el camino
Haciendo a cada paso lo mejor de lo vivido
Mejor vivir sin miedo


Lo malo se nos va volviendo bueno
Si quieres las estrellas vuelco el cielo
Sin miedo a la locura, sin miedo a sonreir

Sin miedo sientes que la suerte está contigo
Jugando con los duendes abrigándote el camino
Haciendo a cada paso lo mejor de lo vivido
Mejor vivir sin miedo

segunda-feira, 12 de março de 2012

Trabalho

Acabei de ler um e-mail que me deixou tão triste...

Ontem, foi um dia pesado, agressivo. Trabalho árduo. Todos que trabalham na construção sabem o peso do tijolo a tijolo, da secura do cimento, da rudez da vida. Eu, que cresci em uma casa já construída, e não acompanhei nem reformas, nem pinturas, pouco sabia ou queria saber disso. Eu posso todos os dias observar os homens que, sem plasticidade, constroem o prédio aqui na frente de casa. E esquecer do seu suor e caras vincadas quando o prédio estiver estalando de tão novo. Sou fraca e ainda só sei admirar a beleza que é bela.

Sou fraca e apesar dos meus gritinhos estridentes, acho que nunca soube lutar de verdade. Ou nunca soube viver de verdade, ou amar de verdade.... tanto faz. Nunca soube - ou pouco quis saber - de degraus, dias de sol, dias frios, poeiras, cansaços, espírito de vontade, suor, suor, suor. Compromisso. A construção é um trabalho árduo - mas nascemos com tudo pronto. Inclusive, com a arrogância.

Contra a vontade do meu ego - francamente, eu não aguento mais escutá-lo - estou fazendo tudo diferente. Estou indo por outro caminho. Todas as minhas dúvidas e medos foram comigo. Teve vezes que segui saltitante, teve vezes que empaquei. As vezes que retrocedi.... as vezes que dei voltas em mim mesma. Sem perceber, já estava em outro caminho.

Talvez, eu não seja tão orgulhosa quanto eu prego.


domingo, 11 de março de 2012

Relicário

Um terremoto... um vendaval... o que será isso?
Tudo está saindo do seu lugar, pelo ar, pelo chão, quebrados, rachados, inteiros.
Eu podia jurar que tudo estava em repouso, mas que ilusão a minha.

Eu deveria estar com medo, mas, que gozado, EU NÃO ESTOU. Eu posso sentir os pedaços da minha alma, um a um, se ressecando. E posso sentir a tristeza, posso até tocá-la.

A tristeza e a felicidade são uma só.

Eu mal posso crer. Acho que em fim encontrei minha coragem.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Cortesia

Feeling lonely

I guess that't why they call it the blues



Não funcionou. Não deu certo. Falhou. E quando se chega bem nessa pontinha, parece-se se tudo com precipício. Não há como gostar da tristeza, quando ela nos tira o futuro.
Hoje se fica com a tristeza - mas parece mais um tropeço do que um sentimento. O que fiz de errado? Fiz algo errado?

O que está acontecendo.

Não sei qual é o poder dessa coisa que faz com que até a mais próxima das pessoas pareça distante. E até minha felicidade fica descolorida. Mais uma vez: tempo, tempo, tempo. Só assim para se aquietar, entender. Continuar.

Mas não tenho a menor vontade de falar sobre isso. Só desejo ficar triste. E gostaria apenas que me escutassem - talvez escutem a própria tristeza de dentro de cada um. Talvez ninguém goste de ser lembrado da dor - assim como alguns não gostam de ser lembrados que podem ser felizes.

Eu gostaria estar alegre agora, plena. Mas estou cheia de tristeza - e transparece. O rosto está pálido, os lábios acinzentados. Os olhos não estão decididos - eles parecem estar firmes, no entanto; mas sem o vislumbre do adiante.

A tristeza é mesmo uma porta fechada.

Dentro da minha dor, só consigo olhar para dentro, para mim, e eu estou lá, sentanda olhando para o nada. Sou eu dentro de mim, que está dentro de mim, que está dentro de mim, que está dentro de mim... encontrarei algo?

E estou procurando algo?


Precipitada

A palavra era precipitada. E eu não conseguia me lembrar dela, de jeito nenhum. Estranho que eu a tenha escondido de mim mesma - talvez por ser uma palavra pronunciada mais por outros do que por mim...

"Tu não acha que está sendo precipitada?"

Eu nunca achava. Sempre queria viver rápido demais, viver logo, sofrer pouco, receber logo a minha sobremesa. Tinha medo de tudo... não, isso não é verdade. Eu temia era ter as coisas. Principalmente, o que eu queria.

Foi S. o único a dizer: " E o que é ser precipitado?"

Não sei, até hoje, não sei. Não me sentia precipitada, mas me sentia segura naquela fuga do tempo. Como se o tempo não pudesse me alcançar e eu não tivesse nunca que me transformar.

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Será que ando rápido demais? Não sei, são muitas mudanças... será que não são mudanças demais? Até onde isso vai? Quando isso para?

Eu consigo manter tudo isso?

Muita gente indo embora, morrendo... muitas situações mudando. Muita opinião minha mudando. Várias vezes, não quero agir como costumava - e daí fico sem saber o que fazer. Muitas vezes ainda tenho medo.

Que merda de coração, hein?

Queria qualquer segurança agora.... pelo menos, antes, mesmo não sendo quem eu era, eu sabia o que estava acontecendo. Ou achava que sabia. Podia ter aquela ilusão tão boa, tão poderosa, de que estava controlando algo.

Um dia vou descobrir quão patético isso é.

Mas nessa madrugada, eu vou só ficar triste pelas coisas que não tenho, pela confusão na minha cabeça... eu comecei a arrumar uma casa que não para de ficar bagunçada, sempre surgindo uma gaveta aqui, um armário ali. Não para nunca. Hoje, não aguentei. Quis ser, ter como era.

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Quem já disse, antes de mim, que a mudança é um caminho sem volta?

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Só de me perguntar se deveria fazer tal coisa, eu já sei que estou fazendo.

Que droga.

A liberdade nunca foi minha escolha. Sou obrigada a ser livre.

Não tenho como evitar.... e às vezes, como gostaria!

quarta-feira, 7 de março de 2012

Dura



"Conhecem o tipo 'carne fraca'?
Eu sou do tipo carne dura."

Construção


Construindo quem sou, onde habito. Construindo meu coração com barro e trabalho e cansaço. E medo. E coragem.

terça-feira, 6 de março de 2012

Dor e Alegria

Cada dia é quase um susto.

Ele nasce de um jeito inevitável e imprevisível. Tenho medo, claro! Gostaria de ter tudo sob controle, para aquecer meu ego e para não sofrer. Com a escolha que fiz, essas atitudes não serão possíveis.

Não são.

Apesar de estar doendo, eu não sofro - disse um melhor amigo que "a dor é necessária, mas o sofrimento é opcional".

Percebo, nesse instante, que vivi sofrendo... mas não as dores necessárias. Contornei da dor, me escondi. Temia rejeições e fracassos - que nunca aconteceram, pois nunca deixei que me acontecessem. Nada aprendi, se nada experenciei. O que eu esperava então, que tipo de vida eu esperava?

Torço por um "fora". Por alguém que me "jogue na cara" o meu desvalor. Rezo por um coração quebrado, rasgado. Por um não. Todas essas coisas temi, fugi - e acabei não sabendo. Três décadas e qualquer adolescente é uma bíblia para mim.

A dor está criando quem sou. Está soldando, fechando arestas. A alegria sincera não surge espontaneamente. Ela mora no coração, que agora se abre em feridas. Negar a dor é negar a alegria - e não viver a alegria é como não viver.

Nem sei como consegui chegar até aqui, mas cheguei. E meu espírito dará voltas e voltas - mas ele sabe o caminho.

Talvez só precise mesmo se aquecer.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Rainha

Quando se considera tão pouco a si mesmo, a imagem do reflexo costuma vir falha e há um desajuste no valor de quanto nos vendemos e por quanto gostaríamos que nos comprassem.

Primeiro, eu me achei sem valor.

Na segunda fase, eu me apresentava sem valor ou com um valor muito abaixo do mercado.

Que lucro há nisso, a não ser o fato de que, quando somos poucos, não é necessário fazer esforço para nada.

Dessa vez, minha arrogância me salvou da escravidão: eu não estava satisfeita em ser tão pouco, pois me considerava acima de todos.

Ah, sim, eu fui uma rainha. Na terra da Vitimolandia.

Trinta e um anos até a coroa, que me incomodava há tempos, fosse retirada.

Alma Barata

1- O medo é ilógico.

2- Elas não gostam de se esconder... elas só CONSEGUEM se esconder.

3- A maioria das pessoas não sabe nada sobre elas.

4- São feias pra caralho. E nojentas.

5 - A barata não vai embora. Ela foge. E só quando for descoberta.

6 - As baratas são solitárias.

7- As baratas te vencem pelo medo.

8- Elas fazem "caquinha".

9- Elas fazem casulos.

10- Ignorar UMA barata pode gerar uma proliferação silenciosa delas na casa.

11- Não tem jeito - por mais que se tenha coragem, sempre se fica com medo de baratas.

12- Ninguém gosta de admitir que tem baratas na casa. É como se fosse uma culpa, um fracasso.

13- Você pode ser maior. Elas são mais rápidas.

14- Pode chegar o momento em que chinelos não será mais o suficiente.

15- Apesar de assustadoras, elas não são capazes de te enfrentar.

16- À noite, elas aproveitam para sair do seu esconderijo ... para ir para outro.

17 - As baratas não possuem um grande objetivo na vida. Nem um pequeno. Esse é o nosso trunfo sobre elas.


A dança


"A dança mal conseguia ser tolerada, se é que o era, e por isso elas dançavam na floresta, onde ninguém podia vê-las, no porão ou no caminho para esvaziar a lata do lixo."

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Vôo Solo


antes o céu do que mal acompanhado.


Precisava passar aqui antes de dormir, falar dessas coisas de hoje. De como hoje arrumei minha casa - que já estava arrumada - apenas bagunça-la mais, perder definitivamente o medo de baratas e deixar minha casa e meu passado mais leve. De como isso teve sua beleza e como foi divertido ter minha filha ao meu lado nesse momento. Mas como esse momento não teve nada de ideal. Ele precisou ser feito e foi.

Falar da solidão de hoje, como os amigos fugiram das minhas mãos... uns se esconderam na ilusão, outros na mentira e alguns nos shoppings mesmo... mas de como isso foi bom, porque lembrei de como era a solidão, de como doía e de como não doía coisa nenhuma - pois eu não estava só. Eu só me achava só.

Eu li em algum lugar que a solidão é incapacidade de fazer companhia a si mesmo. E é verdade.

O Amor Próprio não me parece um destino, me parece uma estrada, bem, bem, bem, bem longa e que precisa estar marcada pelos seus pavimentos, para facilitar o trânsito. Não basta se amar, tem que se esforçar todo santo dia.

Hoje, não houve o que me distraísse. Matei todas as baratas que consegui - só me escapou uma, não imprevista. O gozado é que eu sabia das outras. Eu sabia que estavam lá, se alimentando dos meus segredos. Aniquiladas, como Ryan Gosling matando seu inimigo no elevador.

Não é por acaso que eu assusto. Nunca consegui esconder muito bem que sou uma selvagem.

O resultado da minha nova faxina foram espaços novos... e o engraçado é que eu não sabia o que colocar neles.

Mas é preciso preencher algo só por que se está vazio?

A última lição do dia foi ter dormido para assistir à cerimônia de entrega do Oscar e ter acordado só depois que ela estava encerrada. O que há de libertador nisso? Simplesmente tudo: filmes que não vi, vida que não acompanho, coisa repetida que fiz durante zilhões de anos e sequer tava com vontade - sincero. Quando acordei, no entando, me senti mal por ter perdido... o que foi mais maravilhoso ainda.

Eu preciso desse medo, provoca-lo, convoca-lo. E depois transformá-lo em coragem, em coração. Pois eu não temi mais as baratas porque já estava acostumada com elas... na verdade, o fato de saber que elas estavam escondidas em algum lugar passou de confortável para desconfortável e hoje CONFRONTÁVEL.

Os objetos de apego, tão nocivos e feios como as baratas, talvez precisem passar por esse processo. São várias baratas, infelizmente, em vários esconderijos, tantos que há sempre uma novidade. Um a um, eles vão me ficando desconfortáveis. Aguardo o confronto.

Precisava escrever isso.
De como minha Redenção foi a ficar sozinha, mas sem estar.
Só para descobrir que esse território é meu.

Sonhem, almas corajosas. E confrontem. O caminho do coração é esse.


sábado, 25 de fevereiro de 2012

Re-conhecimento




Eles têm estado lá há algum tempo. É difícil perceber o quanto - até mesmo, se eu eu os havia notado. Ou em quanto são. Não consigo prever seus sentimentos - raiva, alegria, aflição. Apesar desse contato visual, da respiração a flor da pele, eu não sei nada, a não ser que fica cada vez mais óbvio que não há, nem nunca houve a intenção de ficarem escondidos, a espreita.

Resta, então, que quem me cobria era eu.

Com a frágil e rala consciência de mim, eu tento me olhar, mas sem um espelho, isso se torna uma tarefa infeliz. Eu ergo o meu olhar e novamente os percebo, nessa nova forma: eu me verei em seus olhos. Olhar para si também é olhar para o outro - e talvez, olhar para si seja apenas olhar para o outro. E se reconhecer.

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Já disseram que o que odiamos nos outros é o que odiamos na gente mesmo, não foi? Tento sempre ter isso em mente. Que as minhas acusações sejam de crimes que EU cometi. Que o que não posso perdoar seja, em verdade, meus pecados. E tenho fugido tanto que só corrobora essa versão das coisas.

Os sonhos, então, são algo. Acordo sempre com medo. Um ou outro sentimento pode variar - nesse que me trouxe até o CaraAlma há resquícios de raiva - mas medo está muito marcado no meu corpo. Há sempre pavor, acordo agitada - geralmente, eu anseio pelo fim do sono e então desperto. A sensação é desagradável, a realidade dá um pouco de acolhimento, até eu me lembrar de tudo o que me cerca. E fugir é desnecessário - eu ainda estou dentro de mim.

Talvez essa coisa de autojornada seja uma grande guerra com o seu ego. O meu ego é o meu maior inimigo - é como vejo as coisas no momento. Gostaria de destruí-lo, quebrá-lo - ele me é como um espelho que só me mantém presa em mim mesmo. E eu quero ser livre em mim mesma. Quero ser livre em minhas roupas, nos meus risos, na minha raiva e na minha idiotice.

(Para quem se preocupar se isso dará certo, eu reafirmo que liberdade é um caminho sem volta. Estou sem escolha e estou feliz. Isso irá para onde irá, longo ou curto seja o caminha que se trilhe.)

Talvez essa coisa de autoconhecimento, na idade em que me encontro, seja como um exercício, como uma prática. O meu corpo também precisa de treinamento - o que nenhum livro ou insight pode dar. Ele precisa da experiência física para criar o seu instinto. Nesse caminho, apesar de manter mais fechado do que aberto, o meu corpo segue praticando sua liberdade.

Ele fica triste - não muito, é verdade, mas já consegue pronunciar as palavras "estou triste agora".

Ele se defende das risadas debochadas - coisa bem difícil, porque o movimento antigo era de rir também, depreciar-se também.

Ele diz não para uma situação repetitiva - é verdade que não usamos a verdade nesse caso. Mas a verdade envolvia todo um passado de mentiras... o corpo, que não tem tempo, apenas infância e velhice, achou por bem começar pelo presente, até para que todos os envolvidos, mesmo não compreendendo o passado, sintam que agora é o que interessa - e agora já mudou.

Ele exigiu respeito.

Ele liga para quem não perdoou - não tendo perdoado.



Veja bem, a jornada do corpo não é necessariamente a jornada da alma. As necessidades são diferentes, os compostos são diferentes. E é necessário contar-se com os dois.

Antigamente, eu confundia muito - o corpo e a alma. Errava nas minhas leituras - e errava nas leituras alheias. Porque, por muito tempo, eu não tinha poder sobre nenhum deles.... quando passei a ter decisões sobre eles, cometi muitos equívocos.

Eu alimentava o meu corpo em seus anseios - quando os anseios eram da alma. Por isso, passar dois anos sem escutar meu corpo fez que eu entendesse minha alma. Naturalmente, a alma e o corpo não são inimigos: conforme escutava a primeira, o segundo seguia na mesma melodia, harmoniosamente. Passar tanto tempo hibernando realmente ajudou a compreender e valorizar o acordar.

Resistir foi importante - as pessoas não entendiam por que eu não "aproveitava a vida" fazendo sexo com qualquer um que me aparecesse - ou qualquer um que me desejasse ou que eu desejasse. Poucos compreenderam que eu deveria ser mãe naquele momento - e ser mãe também era ser eu. Lidar com isso é importante - as pessoas não gostam de ser lembradas das mentiras que inventaram para si, elas se sente traídas, roubadas. Como eu mesmo tentei fazer no meu próprio sonho, nós, com medo, atacamos qualquer coisa que anuncie nossa libertação. É daí que vem aquela coisa que somos nosso maior inimigo.

Outra coisa que devo dizer: sobre a mensagem da minha prima. Veja bem, minha prima - minha família - é aquela outra opção que sempre ignorei. Eles sempre estiveram ali - mas não me amei suficiente para poder enxergar o poder do amor deles. Mas estamos vivos e ainda há tempo.

Minha prima me mandou uma linda mensagem quando soube que estava de partida nessa minha caminhada. Me dizendo coisas maravilhosas, próprio da natureza dela.

Mas algo me incomodou: algo sobre eu não ser séria, não parecer ser séria... isso é uma lenda, lenda antiga. Não, ela não foi a única. Toda minha vida teria sido assim.

Quando meu primeiro filho nasceu, isso ficou gritante, pois muitos vinham me elogiar minha determinação - surpresos pelo fato de eu ser uma boa mãe. Acho que eles pensavam que ia deixar a criança passando fome ou jogá-la em um latão. Só pode.

Apesar de isso me causar muita raiva - pois detesto ser acusada de algo que não fiz - comecei a considerar por que tantas pessoas acham isso. Sim, eu sempre fui taxada de louca ou maluca. Claro que há situações que fujo do normal, mas não é a maioria delas - pelo contrário. Eu nunca usei drogas - e só passei a beber álcool agora, coisa que quero reverter, pois não sou eu (era eu querendo agradar alguém). Fiz sexo sem amor muito menos do que as pessoas que me acusam. Não acredito em infidelidade. Acredito no que é certo - sim, pois existem coisas que são certas. Acho ser fraco, ou o elogio à fraqueza, um porre. Defendo a verdade e a honestidade - mesmo na época em que não fazia essas coisas muito bem. Eu era irresponsável sim. Mas também era outras coisas...

Como olhar para si também é olhar para os outros, com certa dificuldade, posso começar a perceber que também vestia uma máscara. Uma máscara tão forte e grande que permitiu que nunca me vissem como sou/era. Tão fabulosa que houvesse quem a invejasse. Como o meu corpo anda nú por aí, as pessoas quase nem reconhecem - elas esperam pela máscara. No passado, quando meu primeiro filho nasceu, isso me causou grande aflição. O abandono e o descaso das pessoas me feriu profundamente. Ainda estou aprendendo que quem nos abandona não pode valer grande coisa. E estou deixando ir - que grande atraso o meu, não é?

Ah, é uma grande alegria a tristeza. E se mostrar triste.

Eu tive essa experiência de carregar minha tristeza - sincera - e não ter vontade de fazer nada, nem de conversar com aquele gatinho. Não sei dizer como, mas me senti melhor do que simplesmente estivesse alegre.

Há sim um pacto que mantivemos todos esses momentos com essas pessoas... quebrou-se. Nesse momente, eu devo parecer uma estranha para elas. E a elas, eu pouco reconheço. Naturalmente, aquele desconhecido que em meu sonho entrou em minha casa passo a passinho - bem pequeno, vero - cada vez mais me é familiar.

Mais uma vez, se nota que na palavra re-conhecer, o prefixo traz a ideia de repetição... conhecer de novo. O que foi esquecido.

Chega de deixar qualquer um entrar na minha casa.

Intro

"Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decidamente quatro patas."

(ESTÉS, 1994)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Livro


Não comecei a ler o livro.

Deliberadamente, decidi varar a madrugada fazendo outras coisas - criando fantasias para preencher meu coração. Eu não preciso - nenhum ser humano precisa - de fantasias para preencher vazios... não sei que palavra se usa para isso, mas tomei decisões e agora tenho medo de seguir adiante. Estou com medo de perder algo que não tenho. Nem sempre se está tão disposto assim, não é mesmo.

Muitas vezes, tenho vergonha de mim mesma. Não exatamente do que eu fiz... mas do resultado das coisas que eu fiz, no que essas ações me transformaram. Conscientemente, sei que é mais do urgente parar. Conscientemente, é preciso admitir que não quero parar. Que quero continuar a me esconder, a me enganar, etc, etc, etc. Toda a ladainha.

Para minha total sorte, no entanto, essa vontade de verdade não vai parar. Eu preciso da verdade como um sangue. Eu preciso dela nas minhas veias, para que minhas veias sejam veias, minha pele seja pele, para que tudo me pertença, tudo seja meu. Não há, nem nunca houve necessidade de se esconder por trás de nada, nem de ninguém. Havia, talvez, uma arrogância... a arrogância de não precisar sofrer.

Esclareço logo: é ridículo determinar sofrimento como rotina de vida. Mas do que falo é da coisa natural, da dor natural da vida. A dor de um parto; de uma febre; a dor causada por algo que realmente nos causa dor. A dor das tristezas necessárias da vida, das frustrações, dos desavanços; das feiuras. A dor que lembra quem somos.

Para minha total sorte, a vontade pela verdade não vai parar. Ela sempre se manteve no meio da noite, como hoje, quando não quero dormir. Para não ter que sonhar, não precisar acordar. Para, também, causar sono, falta de vontade, preguiça. Coisas que justificaram minha baixa valia, causaram a ausência do Amor.

Entupi minha noite de filmes românticos, querendo fantasiar com algo que.... algo que.... ainda não sei explicar. E me peguei reinventando uma vida para mim mesma, mas numa em que as decisões da minha felicidade partiam de outros. Ouvindo músicas para se lembrar de alguém que não há. Morrendo de saudades de algo que só eu inventei. Quando me dou conta, percebo que, na verdade, eu precisa descansar para encarar meu dia seguinte, um dia que eu poderia construir tudo que eu quisesse; mas já tinha gastado meu tempo desejando, mais uma vez, algo que eu nem queria.

Ah, que cansaço.

Eu não preciso mesmo de ninguém no meu coração. Ninguém além de mim. Pois o coração é habitação e quem possui a chave da casa é o seu dono. No meu sonho, eu estava na cama, sonhado, quando chega o desconhecido... que tem a chave.

A liberdade para mim não é uma opção. Felizmente. Sou obrigada a ser livre.

Até meu inconsciente grita.

Me envenenei com doces. Veja bem, não há nada de errado com os doces, quando eles realmente podem te saciar. Viver só de doces não alimenta a alma, eles só fazem sentido depois do arroz e feijão.

(por que procurei alguém para ocupar minha mente, quando eu já moro lá?)

Eu fugi do livro . Mas devia ter me livrado de outras coisas.

Eu optei por velhas histórias que nem cabiam mais pelos meus pés, não me passavam mais pela cabeça. Fui convencida de que era o que havia no momento - não seria merecedora de algo melhor. Eu optei por velhas histórias, que eu mesma sabia que não correspondiam a minha vontade. Por que fugi de abrir um livro novo, de ter novas histórias?

Provavelmente, há resposta para toda pergunta feita - algumas perguntas podem ter mesmo duas ou três ou zilhões de respostas.

Mas logo que me dou conta do meu equívoco, a graça em ver aquele episódio repetido, de uma coisa que fazia tanto sentino no nosso passado - mas que hoje não há valor algum para ela - é inexistente. Existe um livro novo, um presente, uma coisa que minha alma grita há anos. Do que me serve ignorá-lo? Todas as drogas que utilizei não me deram paz; e as desculpas em farrapos que decorei não me enganam mais.

Pois agora, fica marcado o início do fim do passado.

O livro é aberto. Adeus, minhas ficções. É por esse livro que terei acesso ao real.

Abro. Tudo tem volta, mas não desejo o retorno. Não é necessário desejar mais nada. Só quero ver, só quero ser.

Lendo as orelhas do livro, encontro uma ironia, uma sintonia: o livro trata do arquétipo da mulher selvagem atrás da análise de histórias - mitos, contos de fadas, etc. Usa a ficção para lidar com o real - uma vez que utilizei o meu real para habitar numa ficção.

Não é necessário desejar nada. Viver, isso sim, é necessário.

Habitar, conquistar meu coração. Isso é necessário.

Até porque, não há como entrar numa casa fechada, não honestamente, se não houver ninguém para atender a porta.

De longe, vejo a alcateia.

Coração



A noite parece longa - mas, em verdade, ela está apenas escura.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A des-conhecida


Hoje, tive um sonho. Eu não dormi muito, cheguei tarde em casa, mas tive uma soneca em que tive esse sonho. Eu estava dormindo na minha cama, quando alguém abria a porta da minha casa. Essa pessoa tinha a chave da minha casa... mas eu não sabia quem era. Eu não conseguia ver seu rosto - uma daquelas coisas de sonho. Eu, com muito esforço, consigo me levantar - lembrem-se, eu estava DORMINDO - e ir em sua direção. Eu estava morta de medo, mas tinha que saber quem invadia minha casa, quem tinha minha chave, quem era o desconhecido. Ele, na verdade, não vem atrás de mim, eu pouco importo, mas ele me causa um medo imenso, um PAVOR. Com uma imensa dificuldade, eu consigo chegar perto daquele desconhecido, cujo rosto era só um borrão branco, um homem de camisa branca na minha casa. Mas nunca consigo reconhecê-lo. Tento então acender as luzes, mas não consigo: primeiro, eu não consigo meus braços para alcançar o interruptor; quando consigo, é como se minha mão estivesse com caimbra, um formigamento... ela fica sem poder nenhum; quanto toco o interruptor, a luz não se acende.

Aliás, não estava escuro. Estava claro.

Por que eu não conseguia vê-lo? Por que tinha medo, se ele não me fez mal ALGUM?

Eu, então, ainda com pavor, chego perto... só vejo seu pescoço... ele me pareceu velho.

Eu estava em pânico. Rezo para ser um sonho e tento me esforçar para acordar. Acordo com pavor, olho para porta, verifico que estou na cama, deitada na mesma posição. Na minha frente, o indefectível acesso à internet....

Eu procuro pelo significado daquilo tudo - meu coração ainda batia no cavalgar do medo.

Na minha primeira pesquisa, encontro isso:

"Para ver um estranho em seu sonho, significa uma parte de si mesmo que é reprimido e escondido. Alternativamente, ele simboliza o ajudante sonho arquetípico que está tentando dar algumas dicas e conselhos."

( http://www.sonhossignificado.org/index.php?s=estranho )

Ficou lógico para mim. Ficou para vocês?

Algumas horas antes de entrar no meu blog, eu, integrada, busco nova pesquisa. Dessa vez me deparo com bobagens - e até suspeito do tal efeito fohrer - mas encontrei algo que satisfez meu coração:

"Ver uma pessoa desconhecida em seu sonho significauma parte de você mesmo que está oculta.
Ver um lugar desconhecido em seu sonho representa uma mudança em sua vida.
Se você está receoso ou perdido indica que você não está pronto para esta mudança.
Se você esta vontade ou feliz neste lugar desconhecido indica que você está pronto para a mudança."

( http://www.livrodosonho.com/significado-dos-sonhos-sonhar-com-desconhecido-2804.htm )

Ainda não iniciei o livro... mas creio que esse é o prólogo da minha jornada. Como já disse, que ninguém me aguarde como uma heroína rasgando as roupas e se jogando para o fogo. Na vida real, as pessoas evitam. Demoram. Atrasam-se. Tropeçam. Protelam. Gaguejam. Sonham em dizer uma coisa, dizem outra.

No meu sonho, meu medo me moveu para o desconhecido. Mas era para derrotá-lo, expulsá-lo. Não era para conhecê-lo.

Eu estava A P A V O R A D A. Talvez por isso não pude vê-lo, reconhecê-lo. O medo nos cega tanto...

Preparada ou não, eu iniciarei de qualquer forma essa jornada. Se até meu inconsciente se manifesta nesse sentido, eu já sei que é um sinal que preciso encarar. Eu procurei por "estranho", e um dos resultados me surgiu com a palavra "desconhecido". Como um analisadora nata, percebo imediatamente que a palavra vem com aquele prefixo "des-", um prefixo que dá uma sensação de passado, de história.

Percebam: uma casa inabitada é uma casa sem niguém. Mas uma casa desabitada é uma casa que já fora habitada... e que não é mais. Da mesma forma, penso que o desconhecido, em algum momento, já foi conhecido. E, por qualquer motivo, foi apagado da memória.

O desconhecido do sonho não me atacou, não me fez mal: eu é que queria fazer mal para ele, deliberadamente... por quê? Para quê?

Naturalmente, só EU posso fazer mal a mim mesma.

Essa luta vai ser braba.